Tive acesso essa semana a um livro interessante chamado “Princípios educativos de Marcelino Champagnat” de Gildo Cotta (São Paulo: FTD, 1996). Quando terminei de ler pensei em postar algo sobre ele aqui, fazer uma introdução e coisas desse tipo, mas ai eu estaria escrevendo um artigo, e não estou com muito tempo para isso, sinto muito... então vou transcrever algumas partes do livro que são relevantes a esse blog.
Devo afirmar que simplesmente transcrevi as partes referentes a disciplina e indisciplina (p. 128-134), as afirmações do autor e de Champagnat não representam necessariamente minhas convicções. A bibliografia apresentada também foi transcrita conforme o livro.
5. O Fundador insistiu muito na disciplina para formar os alunos. A insistência pode parecer, e certamente é, em parte, o tributo que ele paga à situação histórica na qual viveu: época de idéias revolucionárias e de reação contra elas. Mas o Padre Champagnat não pode ser encarado de maneira superficial: deve-se estudá-lo muito para penetrar-lhe o pensamento e o espírito sem risco de engano. Ainda nesse ponto ele é o educador exemplar, que visa constantemente a formar o homem e o cristão, ou melhor, o homem-cristão. A disciplina é tratada nas diversas obras que nos transmitem o pensamento do Fundador, mas as idéias são aproximadamente as mesmas. Procuremos sintetizá-las, recolhendo as que retornam com mais freqüência e são mais significativas.
5.1 Necessidade da disciplina
“A disciplina é necessária à educação, visto que a escola não pode substituir na desordem, na insubordinação, na algazarra, na diversão: requer-se ordem, silêncio, trabalho”(1). “A disciplina é o corpo da educação: a religião, a alma(2)”.
A idéia retorna sob outra forma e enfoque: a disciplina representa metade da educação da criança; faltando essa metade, na maioria dos casos inutiliza-se a outra(2). É tão necessária que, sem ela, não existe instrução nem educação possível(3).
5.2. Efeitos da disciplina.
A disciplina salvaguarda a fé e a piedade dos alunos, preserva sua inocência, garante seu progresso, previne suas faltas e, em decorrência, os castigos(3). Além disso, “fortifica a vontade da criança, dá-lhe força para resistir ao mal e combater as más tendências, previne-a contra a inconstância e os caprichos: forma para o bem, ensina a querer, a adquirir o hábito do dever e dispõe a seguir as inspirações da graça(1).
Habituar os jovens à disciplina é prestar grande serviço a eles, à família, à sociedade civil e à Igreja(2).
5.3. Males da indisciplina para a vontade.
Além de privar dos benefícios acima relacionados, a ausência de disciplina “enfraquece a vontade, deixa-a entregue aos caprichos, habitua-a a proceder conforme os repentes da fantasia; deixa-a indecisa entre o bem e o mal, sem coragem, sem energia, incapaz de tomar firme resolução, de praticar virtudes sólidas e de fixar-se no bem(1).
Por isso o Padre Champagnat chamava com tanta veemência à responsabilidade quem não cuidasse da disciplina. Para os alunos seria melhor ficar em casa; para uma aldeia, seria melhor não ter escola nenhuma do que ter uma escola indisciplinada(2).
5.4. Meta da disciplina
Na meta prefixada descobre-se a mentalidade do Fundador e o que efetivamente entendia por disciplina. Encontramos em Avis leçons, sentences, na página 56: “O objetivo da disciplina é conquistar o coração dos jovens, formá-los para a virtude, levá-los a cumprir o dever por amor e não por temor.
Em Vida, página 493, consta: “A finalidade da disciplina não consiste em reprimir os alunos pela força nem pelo medo de castigos, mas em preservá-los do mal, corrigir-lhes os defeitos, formar-lhes a vontade, incliná-los suavemente para o bem, dar-lhes o hábito da pontualidade e da virtude por meio do sentimento religioso e do amor ao dever”.
Ainda em Avis, leçons, sentences está escrito: “A disciplina é um dos meios mais adequados para fortificar a vontade, dar-lhe energia, para fazê-la adquirir o hábito da obediência e da santa violência que é indispensável fazer-se, para ser fiel à graça, lutar contra as paixões e praticar a virtude”.
A expressão “para ser fiel à graça” retorna com freqüência e revela-nos não só o segredo da vida pessoal, mas a real natureza da disciplina na qual tanto insistia: a que torna verdadeiramente livre o homem pela escolha do bem, dá a capacidade de viver interiormente na acolhida e dá-lhe o hábito da pontualidade e da virtude por meio do sentimento religioso e do amor ao dever no seguimento das inspirações do Espírito.
5.5. Maios para conseguir a disciplina
Para conseguir tais resultados, a disciplina para o Padre Champagnat deve ser paternal. Não sendo assim, não educa verdadeiramente ao alunos e, em vez de torná-los melhores, afasta-os do bem(3); avilta quem fica sujeito a ela e mais ainda quem a impõe(1). Em educação, não se trata de submeter os jovens ao regulamento pela coação, nem inspirar-lhes medo ou forçá-los(1). A verdadeira finalidade é outra, como já foi visto.
Por acaso é com chibatadas que se educam os jovens para a virtude? De modo algum. São as boas maneiras, o bom senso, os princípios religiosos que obtêm a submissão e levam ao bem, não os castigos corporais(3). E vimos como se pronunciou contra tal gênero de punições, tanto assim que, na Regra, o proibiu aos Irmãos. Para ele a verdadeira disciplina, “ a única que se forma a vontade e todas as faculdades do educando”, é fruto da autoridade moral, Esta se conquista com procedimento sempre exemplar, com a dedicação ao bem dos alunos, com o respeito de si e dos jovens, com proceder sempre equilibrado, prudente e sábio, que jamais dê motivo ao menosprezo por parte dos alunos. Daí resultam a força moral, a vontade resoluta, moderada, mas firme. “A firmeza assim entendida age sobre o ânimo dos jovens e os educa de verdade, porque é amor(3).
Pelo contrário, no educador são negativos a dureza, a obstinação, o mau humor, o capricho, a impaciência, a falta de autocontrole, que é sinal de fraqueza(3).
Em educação, verdadeira firmeza, fonte de autoridade moral, é agir com bom senso, após haver refletido e ter-se aconselhado; de outra forma, seria paixão, irritação de nervos. A firmeza não será educativa, produzirá até efeitos deploráveis sobre a educação, se não tiver como princípio o amor oblativo, disposto até a sofrer, para conseguir o bem dos alunos(3).
“A firmeza não deve degenerar em dureza, nem a doçura em falta de energia”(1).
6. Modos de corrigir para educar.
Outra maneira de forjar a vontade e a personalidade humana é a correção. Errare humanum est, “errar é humano”. Com seu conhecimento do coração, o Padre Champagnat não se admirava de que, apesar de todos os cuidados educativos, as crianças e os jovens cometessem faltas. Vimos também que ajudar a corrigir os defeitos e a praticar o bem era a maneira mais comum de manifestar seu amor paternal.
No entanto, por vezes, será preciso a firmeza que corrige para manter o cumprimento do dever, mas firmeza não é violência e “deve ser usada somente por necessidade, quando todos os demais meios tiverem sido inúteis”(1). Ainda assim, confessava que de todos os deveres do Superior o mais espinhoso é a correção(2). Quem possuir experiência sabe quanto isso é verdadeiro.
No que tange às correções necessárias, servem-nos de guia os exemplos e as recomendações do Fundador.
Suas correções eram sempre acompanhadas de bondade e firmeza, de caridade e indulgência(2); recomendava que se respeitasse quem havia falhado, que se levasse em conta a idade e debilitante, que fosse tratado com delicadeza, com aquele respeito que é feliz equilíbrio de ternura, de condescendência e doçura(3).
Além disso, mesmo nas correções que exigiam maior severidade, mostrava-se sempre bom e indulgente. Depois de haver mostrado ao culposo todos os erros, encorajava-o, falava-lhe de suas boas qualidades e lhe aconselhava o modo de desenvolvê-las e de servir-se delas para corrigir os defeitos, com ênfase no aspecto positivo(2).
Normalmente bastava um olhar, uma palavra. Aos mais irrequietos repetia com frequência: “Na primeira vez perdôo; na segunda ficam devendo; na terceira pagam(2)”. Mas ficava muito satisfeito quando alguém lhe respondia: “Padre, prometo que nunca vou ter de pagar(2)”. Sobre tudo nunca foi surpreendido zangando-se contra os culpados, ou falan-do-lhes com irritação; desaprovava os que iniciam a correção censurando a falta(2).
Suas correções eram quase sempre sob a forma de conselhos, consistindo em observar o que era necessário fazer e evitar(2); se precisasse repetir a observação, nunca mostrava ressentimento.
Queria que se levassem em conta as circunstâncias que atenuam a culpa: tempo, idade, temperamento, situações particulares; era indulgente com aqueles que mostrassem boa vontade. Após a correção, era como se nada tivesse acontecido; se o próprio faltoso lhe falasse, respondia: “Tudo bem, meu caro amigo, já esqueci, nem pense mais nisso. Trate de melhorar daqui para frente(2)”. É evidente que só quem está repleto do espírito de Cristo e procura tão-somente o bem dos outros pode comportar-se com tanta abnegação.
O Padre Champagnat apontava, ainda, quatro defeitos que é preciso evitar na correção: o hábito de retalhar, o amuo, a impetuosidade e a fraqueza de caráter(2). A maior preocupação do Fundador estava voltada para o positivo: fazer progredir no bem. Nisso seu método é guia seguro: exigir pouco no início, fazendo percorrer lentamente o caminho da perfeição. Não permitir, entretanto, nenhuma parada e menos ainda retrocessos(2).
Dosar o trabalho conforme as possibilidades, contentar-se com a boa vontade, como esforço... não desanimar os alunos com exigências descabidas(2), saber esperar, porque certos alunos têm desenvolvimento vagaroso(3).
“Cumpre agir sempre com firmeza e bondade; não sejamos exigentes demais; perdoemos algo à fraqueza humana e guardemo-nos do zelo desarrazoado de exigir uma perfeição que não corresponde à idade(2)”.
7. Castigos que educam
A correção, ainda que feita da melhor forma, por vezes não é suficiente; com frequência, faz-se necessário recorrer à punição. O Padre Champagnat exige que os castigos sejam reduzidos ao mínimo indispensável, visto que, como os medicamentos, são salutares somente quando tomados com moderação(2).
Ainda nesse particular, ele dá ótimos conselhos. Recordemos alguns: que o castigo seja tal que o culpado aceite como justo; nos casos graves, deixar a punição para o dia seguinte, a fim de não agir pelo impulso do momento. Elevar a Deus nossa mente para sermos iluminados sobre o que é melhor par ao bem do culpado; ter sempre em conta o temperamento do jovem e a natureza da falta; escolher o momento adequado, quando o culpado já se encontra em condições de aceitar a correção saber dosar as punições de acordo com a gravidade das faltas; nunca dar como castigo coisas que devem ser objeto de veneração ou de amor, afim de não gerar aversão por elas. Em geral o educador deve recear mais pecar por excesso de rigor do que por excesso de bondade(1).
(1) Guide dês Écoles à l’usage dês Petits-Frères-de-Marie, rédigé d’après les Règles et les Instructions de M. L’abbé Champagnat, Fondateur de cet Institut. Lyon : Périsses Frères, 1853. Existe uma tradução brasileira no volume editado por Ir. Luiz Silveira: O Segundo Capítulo Geral do Instituto dos Pequenos Irmãos de Maria, 1852-1853-1854. Belo Horizonte: Centro de Estudos Maristas, 1994, p. 147-298.
(2) Vida de José Bento Marcelino Champagnat, edição do bicentenário. São Paulo, 1989. É a tradução do original Francês: Vie de Joseph-Benoît-Marcellin Champagnat, Fondateur dês Petits Frères de Marie, par un de sés premiers disciples. 2 vol. Lyon : Périsse Frères, 1856.
(3) Lettres de Marcellin J. B. Champagnat (1789-1840). I, Textes présentés par Fr. Paul Sester. Rome : Casa Generelizia dei Fratelli Maristi, 1985.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
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