Bom dia a todos.
Por esses dias eu li um livro bem interessante, chamado “O fim da infância” de Arthur C. Clarke. Como pesquisador, e leitor de ficção científica, resolvi ler e descobrir sobre o que se tratava e se havia algum vínculo com indisciplina escolar. De maneira indireta haveria uma inquietação que poderia ser correspondente.
O livro começa com naves espaciais cobrindo o céu das maiores cidades do mundo; os extraterrestres não tentam dominar a terra, mas mandam nela através da coerção. Depois de muitas páginas (uns 100 anos) os alienígenas se revelam e começam a interagir pessoalmente com os terráqueos. Durante esse tempo todo não se sabe o que querem os alienígenas e chega-se a conclusão de que estão estudando a terra e seus habitantes. Sinceramente o envolvimento das crianças vai acontecer lá pela pagina 200, e já estava chegando a desconfiar que não ocorresse o fim da infância no livro. Porém, depois de várias reviravoltas os alienígenas levam as crianças embora da terra, pois elas passaram por um salto evolutivo psíquico (por assim dizer na falta de termos melhores). Então a terra fica para trás habitada somente por adultos que não podem mais se reproduzir (por alguma razão); então é o fim da infância na terra e da própria terra.
A partir daí ocorre a destruição da terra, e é isso que interessa e pode ser vinculado a indisciplina escolar. Em minha pesquisa do mestrado onde analisei o discurso pedagógico sobre indisciplina escolar, um dos cinco discursos identificados foi a “desqualificação do trabalho docente”; segundo esse discurso dos professores consideram que expressões de indisciplina estariam afrontando sua “dignidade profissional”.
Trecho da dissertação...
[...] as professoras entrevistadas apresentam, de maneira arraigada, a afirmação de que a docência é um trabalho. As professoras entrevistadas não se referem a sua atividade como educar, formar ou transmitir, consideram o magistério especificamente um trabalho. Assim, a indisciplina, como resistência imatura, em algumas ocasiões, seria indicação de que o aluno estaria desqualificando o trabalho docente. Vale ressaltar que a categoria desqualificação do trabalho docente foi a mais recorrente nas entrevistas. Ali encontramos afirmações categóricas de que os professores devem a todo custo trabalhar, mas a indisciplina escolar impediria que isso seja feito.
Assim, conversas paralelas, gritos, celular entre outros, impedem a realização do trabalho docente. Nas afirmações das professoras entrevistadas há uma forte crença de que a indisciplina seria tempo perdido de trabalho e de estudo. Aqui podemos nos questionar se quando os professores realizam seu trabalho, isso faz com que o aluno aprenda?! E, se não aprendeu, seria indisciplina?! Haveria assim uma resignificação daquilo que as conversas paralelas, e outras expressões de indisciplina, representam. Mas, caso a professora as perceba, são consideras uma desqualificação do trabalho docente, caso não as percebam enquadram-se em outra categoria.
A ideia de indisciplina como desqualificação do trabalho docente foi a categoria mais recorrente no discurso das professoras entrevistadas. Aqui, podemos nos perguntar se o que atrapalha as professoras na realização de seu trabalho seria o aluno do outro lado. Como afirmam as professoras entrevistadas, o trabalho do aluno é estudar, e o aluno indisciplinado é aquele que não trabalha, desqualificando o trabalho das professoras.
No discurso das professoras fica aparente o entendimento de que ser professor é um trabalho com requisitos claros a sua execução, exemplificados como recato no vestir (sem decote), chegar na hora, preparar a aula e não faltar, entre outros, mas não é dever do professor tolerar indisciplina escolar. Isto porque que o professor já é tido (e autointitulado) como capacitado a formar outros. Ele já foi “iluminado”, obtendo o direito de fazer o possível para alcançar o seu fim.
Assim, o professor, chancelado socialmente, possuiria o direito de afirmar que qualquer atividade não autorizada poderia ser entendida como indisciplina escolar. Quando o aluno não se emoldura no entendimento que o professor tem do que é ser aluno, que de acordo com as professoras também se configura como um sujeito que deve trabalhar (estudar), ele está desqualificando o trabalho docente.
Essa afirmação comprova a posição de Meirieu, quando escreve que nas duas últimas décadas “debruçar-se” (2002, p. 99) sobre a criança seria uma fraqueza imperdoável, uma negação e uma recusa a educação. Assim, qualquer instigação disciplinar é entendida como uma desnecessária intervenção, e qualquer coisa que não seja do dever de aluno seria uma desqualificação do trabalho docente.
Dessa maneira, a indisciplina não seria responsabilidade do professor ou do modo como exerce seu trabalho. Entretanto, o professor poderia certificar quem ou o que pode ser categorizado discursivamente como sendo indisciplina, qual sua causa. [...].
E então surge a pergunta, e se não houvesse mais alunos? Se eles passassem por um “salto evolutivo psíquico” e se tornassem mais capazes que os adultos? As escolas esvaziadas, com carteiras desocupadas, quadro negros em branco, luzes apagadas. O que os professores fariam? Reclamariam que não existiriam mais escolas ou que não existiam mais alunos? Eles trabalhariam com o que? Qual a função do professor? Para que serve um professor sem aluno? Um professor sem aluno se torna o que? Um aluno sem professor vira o que? O caminhar da sociedade estaria extinto, nos termos do livro, “O Homo sapiens estava extinto” (CLARKE, 2010, p. 266).
O outro lado da pergunta seria, se os professores abandonassem a escola na espera de uma “qualificação” do seu trabalho docente, o que ocorreria? As escolas cheias de alunos, mas sem ninguém a ensina-las. Uma possível resposta a essa pergunta pode ser encontrada em “A Revolta de Atlas” de Ayn Rand.
A provável resposta é os alunos não percebem que o professor esta trabalhando, nem que eles estão trabalhando. Talvez eles, os alunos, já tenham dado o salto evolutivo que os capacite a entender que a escola e tudo envolvido nela nada mais é que um rito social necessário a sua manutenção autofágica.
Postman em seu livro “O desaparecimento da infância” (1999) considera que a vergonha seria a responsável pela segmentação entre adulto e infante, e que o livro (pós Gutenberg) seria um local dos segredos dos adultos o qual as crianças só teriam acesso através da educação.
Me parece que nos dias atuais ocorre justamente o contrário, é a internet que separa os conhecedores do código dos desconhecedores, que agora são os adultos. A linguagem evoluiu para um nicho hermético da juventude. O discurso de que a escola e a educação formal seriam importantes às crianças não é mais aceito por elas.
A infância já acabou e as crianças desapareceram, a sociedade é que ainda não se percebeu disso. Elas têm acesso a um conhecimento a qual os adultos precisam ser alfabetizados. Melhor, a infância não desapareceu nem teve seu fim, ela evoluiu a algo melhor que ser adulto. “As estrelas não são para o homem” (CLARKE, 2010, p. 272).