quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O fim da indisciplina escolar.

Por esses dias eu estava andando e comecei a pensar na evolução do conceito da indisciplina escolar, nos comportamentos específicos que são efetivamente indisciplina escolar e cheguei a uma conclusão estranha, provavelmente esteja errada, porém gostaria de compartilha-la com vocês e esperar controvérsias. Por favor, me contradigam!

Indisciplina escolar começa a ser assim qualificada em um contraponto a disciplina eclesiástica que à época era a responsável por ensinar a população. Disciplina originalmente estava relacionada ao controle do corpo físico (você pode ver mais sobre isso nesse mesmo blog), creio eu, então, que crianças ou não religiosos teriam dificuldade em controlar o corpo; não haviam sido treinados para isso ou não tinham a dita vocação.

Quando a escola, em seus primórdios, se torna mais acessível à população a indisciplina escolar esta vinculada a uma diferença no comportamento entre clérigos (ou futuros clérigos) e não clérigos; como quem esta em sala e observa esses comportamentos é um padre (ou similar) seu padrão de comportamento adequado é o de controle do corpo. “Mente sã em corpo são”.

Então, indisciplina escolar é uma relação entre o padrão e seu observador que tinha já uma história nesse mesmo padrão. O padrão é mais ou mesmo o seguinte, fico bocejando durante a missa – aperto os lábios e aperto a língua no céu da boca (funciona); minha perna fica “pulando” durante as orações – coloco um cilicio; fico pensando em “bobagens” durante as tarefas do dia – rezo continuamente. Logo, nada mais natural de que a mão que escreve o “erro” seja punida com a palmatória, quando me levanto sem permissão e meus pés se desviam do “bom caminho” ajoelhe no milho, quando minha cabeça não pensa na resposta certa uso um chapéu de burro.

Aparentemente o diabo estaria presente na parte do corpo que comete a indisciplina escolar, nada mais adequado que expulsar esse diabo com desconforto físico; existe algum santo que foi para o céu sem um sofrimento na carne? Sempre que entro na igreja tem imagens de santos sendo queimados, varados por diversas flechas, fritos em caldeirões, etc. Ora, se o professor já tinha passado por isso tudo e acreditava nisso, nada mais “justo” que exigir o mesmo de seu aluno para que esse atinja o mesmo “nível” de iluminação religiosa ou acadêmica. Chegamos à demonização da indisciplina escolar, pois se o padre é o representante de Deus na terra ele sabe o caminho para o céu; para se obter o “mapa” um ritual é exigido, a auto flagelação do corpo; afinal não dá para entrar no céu com um capeta na mão...

E tem mais, o “lugar” professoral é respeitado pela comunidade que quer o mesmo “lugar” em outros termos o status social de ser professor. Os ganhos financeiros claramente seriam superiores se se suportasse as provações do caminho, o que era incentivado pela família do aluno.

No ultimo século, - mais especificamente da metade em diante, anos 50 a 90 – a indisciplina escolar passou daquilo a algo que complica a vida escolar. Digo “complica” para não aprofundar em pesquisas, as mais diversas, que versam sobre o tema. A indisciplina escolar deixa de ser encarada como um pedaço de demônio na criança para ser considerada um objeto de estudo, válido, de algo que compromete a aprendizagem da criança. Aparece a relação professor – aluno, entre todas as outras possíveis causas da indisciplina escolar essa chama a atenção por iniciar um questionamento de que o professor tem uma parcela de culpa nesse fenômeno.

Pesquisas observam comportamentos vinculados a moral do aluno, como algo que deve ter sua origem na família, na sociedade, nas drogas, em outro ambiente fora da escola; em outros termos, se não é o capeta é o que? Não sabemos, mas não tem nada há ver com a escola. (Obviamente é um pensamento simplista que não observa todas as variáveis contidas no contexto desse processo.)

Entre a indisciplina escolar e o bully, houve uma passagem rápida pela relação familiar e a permissividade presente nas famílias. Os mimos sempre eram de mais, as crianças tinham tudo e podiam tudo, os pais aparecem como reféns dos caprichos de seus filhos. E aqui independe se isso procede ou não. Delimito aqui sua aparição, pois ela também aparece como uma das responsáveis pelo bully, ou aumento da indisciplina escolar.

Depois de um tempo, e mais pesquisas, a indisciplina escolar começa a perder espaço para algo que, agora, preocupa um pouco mais as escolas, o bully. A indisciplina escolar perde seu local de destaque (acredito que tenha sido um alivio para a escola) para algo que envolve a relação aluno – aluno. Os envolvidos na escola agora se preocupam com a segurança psicológica do aluno olhando para outro lado.

Qual o assédio moral que o aluno sofre por seus semelhantes? O politicamente correto agora não envolve a aprendizagem do aluno e sim as condições que a escola propicia para a segurança da criança. Dentro ou fora da sala de aula, e isso inclui ambientes virtuais, é aquilo que o aluno faz com outro aluno que “complica” a vida da escola.

Passamos por expulsão do demônio, indisciplina e bully; cada termo desses é referente a uma época histórica com valores sociais e culturais pertinentes relacionados a seus determinantes. A sociedade evolui (ainda bem) e nos dias de hoje não é aceito que o alunos seja seviciado pelo professor (Roma). O termo dos dias de hoje parece ser o niilismo presente no objetivo do comportamento da criança e do jovem. Obviamente não considero que esses objetos ocorram em uma sequencia, ou sejam sinônimos dos mesmos comportamentos.

Então surge a pergunta, e não se trata de pergunta vã que envolve modismo, depois do bully o que virá?

Nos últimos tempos chacinas escolares vem se tornando cada vez mais frequentes; alunos que vão armados a aula; que executam algo mais que bully. A violência esta cada vez mais presente e sinto medo que esse seja o novo mote das pesquisas acadêmicas, reflexo daquilo que acontece nas escolas.

Quem sabe quando o bully for tão pesquisado quanto a indisciplina escolar; quando a violência escolar tome vulto comum irrevogável e também seja objeto de pesquisas e possíveis atuações práticas algo ocorra que a escola foque naquilo que importa. E o que será isso?