domingo, 29 de maio de 2011

Experimento de Reforço x Punição para indisciplina escolar ensino médio (no método SESI)

Como já disse anteriormente sou professor de Psicologia no ensino médio no SESI-FAMEC em Curitiba.
Como pesquisador de indisciplina escolar, formado em Psicologia, resolvi realizar um experimento prático de reforço x punição para identificar qual deles funcionaria na prática. (baseado na economia de fichas... clááásico)

As porcentagens apresentadas são aproximadas.

Utilizei grupos de três turmas. Três turmas de controle (C), três reforçadas por comportamentos de estudo (R), e três punidas por comportamentos de indisciplina (P).
Turmas controle contavam com C¹ = 35 estudantes, C² = 34 estudantes, C³ = 35 estudantes; total de 104 estudantes.
Turmas reforço contavam com R¹ = 34 estudantes, R² = 35 estudantes, R³ = 34 estudantes; total de 103 estudantes.
Turmas punição contavam com P¹ = 33 estudantes, P² = 34 estudantes, P³ = 35 estudantes; total de 102 estudantes.
No primeiro dia de aula as regras foram explicadas e aceitas por todas as turmas dos grupos R e P, sem que as turmas soubessem que havia um grupo de “punidos” e outro de “reforçados”; o grupo C não recebeu nenhuma orientação quanto ao comportamento em sala.

Grupo P
O grupo P (1,2 e 3) seria punido da seguinte forma: caso houvesse conversas paralelas (envolvendo mais de 4 estudantes) fora do conteúdo da aula eu ficaria em silêncio, isso poderia acontecer por 3 vezes durante o bimestre, após o terceiro silêncio eu daria uma “tarefa de casa” envolvendo o assunto trabalhado, escrito a mão com no mínimo 20 linhas. Caso o estudante estivesse com o celular à mão (independente do uso), ele seria recolhido por até três vezes e devolvido ao final da aula, recolhido pela quarta vez o celular seria entregue à secretaria para os pais virem retirar o aparelho. Caso o aluno estivesse fazendo tarefa de outra matéria durante a aula de psicologia a tarefa seria recolhida por três vezes para ser devolvida ao final da aula, a partir da quarta vez o trabalho seria jogado pela janela da sala.

Grupo R
O grupo R (1,2 e 3) seria reforçado com uma “nota de dez legais” (imagem a baixo) por cada comportamento de: pesquisa de conteúdo, criatividade, tarefa de casa acima da média, participação pertinentes em discussões em sala de aula, silencio da equipe, se corrigissem o professor. A cada 10 notas de dez legais a equipe poderia trocar por não precisar fazer uma atividade e tirar conceito máximo mesmo assim; caso a equipe não tivesse as 10 notas para trocar, o estudante que havia ganhado a nota poderia troca-la para utilizar o notebook durante uma aula, caso o estudante quisesse “matar aula” ele poderia trocar por uma nota de dez, caso o aluno quisesse utilizar o celular para “twittar” poderia fazê-lo desde que trocasse por uma nota de dez; e casos semelhantes.
Nota: como a metodologia do SESI é diferenciada e os alunos trabalham em equipes de cinco pessoas as notas seriam somadas para evitar uma atividade avaliativa, porém poderiam ser utilizadas individualmente caso o estudante assim desejasse.
As notas seriam recolhidas e trocadas por conceito na penúltima aula do bimestre, o que possibilita a reutilização em outros bimestres.

Grupo C
No grupo C (1,2,e 3) não houve nenhuma mudança de comportamento por parte do professor.

Resultados apresentados na aula de psicologia.
Grupo P: cada vez que eu ficava em silêncio a turma logo se mobilizava. Em outras palavras, um estudante percebia o silêncio e berrava com a turma “o professor ta querendo falar!”, quando a turma ficava em silêncio eu agradecia ao estudante que berrou “obrigado” inclinando a cabeça, e fazia a contagem do silêncio “esse é o segundo silêncio, mais um, e a partir daí eu carco trabalho no lombo de vocês, certo? Vamos lá” e voltava a aula como se nada houvesse acontecido. No terceiro silêncio a fala era outra “esse é o terceiro e último silêncio, se vocês estão com tempo livre para bagunçar, eu posso ocupa-lo para vocês com trabalho, então... mais um e é trabalho ok?” e esperava a concordância da turma. (em termo mais acurado a turma entrava em ansiedade, em vez de “se mobilizava”)
A turma P¹, precisou fazer 4 trabalhos. O primeiro trabalho, todos fizeram; o segundo trabalho pouco mais da metade fez, no terceiro trabalho 5 estudantes fizeram e a partir daí ninguém mais fez mesmo sabendo que receberiam nota zero.
A turma P², precisou fazer 2 trabalhos. Nos dois trabalhos, cerca de dois terços dos estudantes realizaram a “tarefa de casa”.
A turma P³, precisou fazer 3 trabalhos. O primeiro trabalho todos fizeram, no segundo trabalho dois terços fizeram, no último trabalho nenhum estudante fez.

Quanto a recolher celulares e cadernos; quando eu via alguém na sala fazendo tarefa de outra matéria, eu ia “sorrateiramente” até ao seu lado e pegava o caderno sem dizer nada, e o levava à mesa do professor. Quanto aos celulares eu estendia a mão e dizia, “esse ainda é estrike 1 (ou 2 ou 3, esse termo foi utilizado porque eles estavam tendo Beisebol na aula de educação física, e a cada 3 estrikes o batedor esta fora ...) pega no final da aula, se alguém ligar eu atendo”. Nenhum celular foi recolhido à secretaria, nem nenhum caderno precisou ser jogado pela janela; isso em todo o grupo P (1,2 e 3).

Grupo R
Turma R¹: o barulho na turma era mais elevado que as turmas do grupo P, e as do grupo C, porém absolutamente todos os estudantes fizeram todos os trabalhos pedidos. Quando um aluno estava fazendo muita bagunça eu reforçava outro aluno, com uma nota de dez, que estava participando. Nenhum aluno utilizou a nota para acessar a internet, nem para matar aula. A nota média da turma R¹ foi, em média, 35% mais elevada que o grupo R e 25% mais elevada que o grupo C.
Turma R²: o barulho na turma também foi mais elevado que as turmas do grupo P e as do grupo C. Da mesma maneira todos os estudantes fizeram todos os trabalhos pedidos. Somente um aluno utilizou a nota para acessar a internet (com objetivo de responder a uma pergunta do professor), nenhum aluno utilizou a nota para matar aula. A nota média da turma R² foi, em média, 30% mais elevada que o grupo P e 20% mais elevada que o grupo C.
Turma R³: o barulho na turma foi muito mais elevado que as turmas do grupo P, e também muito mais elevado que as turmas do grupo C. Da mesma maneira todos os estudantes fizeram todos os trabalhos pedidos. Um aluno utilizou a nota para acessar a internet via celular (assistir uma propaganda via Youtube para aprofundar o conteúdo da aula). Houve um aluno que utilizou a nota para compensar uma falta, não para “matar aula”, o que foi recompensado com uma nova nota ao aluno. A nota média da turma R³ foi, em média, 32% mais elevada que o grupo P e 15% mais elevada que o grupo C.

A turma C se manteve normalmente.


Resultado pela perspectiva de notas.

Resultado de notas entre grupo R.
R¹ 95% da turma conceito E; 5% B.
R² 95% da turma conceito E; 5% B.
R³ 90% da turma conceito E; 10% B.

Resultado de notas entre grupo P.
P¹ 30% da turma conceito E; 30% conceito B; 30% conceito S; 10% conceito I.
P² 20% da turma conceito E; 40% conceito B; 30% conceito S; 10% conceito I.
P³ 20% da turma conceito E; 30% conceito B; 30% conceito S; 20% conceito I.
Nota: tendo como base o aluno individualmente houve uma melhora de 30% nas notas do bimestre anterior.

Resultado de notas entre o grupo C.
C¹ 10% da turma conceito E; 30% conceito B; 40% conceito S; 20% conceito I.
C² 30% da turma conceito E; 30% conceito B; 20% conceito S; 20% conceito I.
C³ 30% da turma conceito E; 30% conceito B; 30% conceito S; 10% conceito I.
Nota: tendo como base o aluno individualmente não houve mudança nas notas do bimestre anterior.


Resultados apresentados em outras disciplinas: somente três professores comentaram de maneira espontânea uma mudança comportamental das turmas. Um comentou sobre a turma P² “eles parecem assustados...”. Os outros dois professores comentaram sobre a turma R¹ “o que que você fez com eles que eles estão tão participativos?”, outro professor “você tem que parar de fazer essas coisas, minha matéria já esta no fim e ainda falta uma semana para terminar o bimestre...”.
Não houve comentários sobre a turma C.

Custo das notas de dez legais: 1000 unidades R$150,oo reais.


Comentários: o mais difícil foi, eu me forçar a reforçar os alunos, no início eu distribuía bem poucas notas até perceber que seria quase impossível alguma equipe ajuntar 10 notas; a partir daí me policiei e distribui bem mais notas o que fez o resultado ser mais rápido ainda.


A baixo um gráfico APROXIMADO dos comportamentos de cada grupo. A linha da turma C foi feita dessa maneira para representar sua flutuação de comportamento na média das outras duas. Todas a linhas iniciam-se no ponto 0, primeira aula do bimestre, e terminam na penúltima aula do bimestre, totalizando 8 aulas.





A baixo a nota distribuída na turma R (feita por mim mesmo).

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