Bully e suas dimensões.
Ivan Gross
ivangross@yahoo.com.br
Resumo:
Este texto pretende introduzir a idéia de bully. Apresentar as idéias teóricas ligadas a sua definição. Consideramos quais fatores levam a criança a praticar o bullying sua dimensão familiar, social e pessoal; introduzimos a importância do modelo do professor para seu aluno. Também iniciamos a apresentação de um programa que pode ser desenvolvido na escola para minimizar as ocorrências de bullying.
Palavras chave: Educação, bully, dimensões do bullying.
Introdução
Pode-se considerar que o início da pesquisa sobre o bully se dá em 1979, quando Dan Olweus iniciou o estudo sistemático do fenômeno. Desde então a pesquisa sobre bullying começou a se ramificar por diversos países e áreas do conhecimento como, por exemplo: Psicologia, Pedagogia, Educação, Sociologia entre outros. O bullying a cada dia ganha uma visibilidade maior; veja o seguinte exemplo: somente ontem (19/5/2010) saíram 39 reportagens na internet sobre bully, na mídia impressa de circulação nacional, na última semana (9-15/05/2010), foram duas reportagens sobre o fenômeno.
As consequências para a criança que pratica o bully também tomam uma nova direção, conversa com os pais, suspensões, psicoterapia começam a dar espaço para ações judiciais, como o caso em Minas Gerais onde os pais do aluno terão que pagar 8 mil reais de indenização a vítima do bullying . Percebe-se então, a dimensão que tal fenômeno vem obtendo.
Bullying
A partir desses dados podemos retirar algumas conclusões; primeiro: a importância de se estudar e compreender o bully; segundo, que é consequência da primeira, quanto mais se estuda o fenômeno, mais identificável ele será. A terceira é conseqüência da anterior, quanto mais identificável é o fenômeno maior será sua exposição na mídia. Assim, o quadro que se apresenta nos dias de hoje é a escalada de casos de bully, um acontecimento muito falado, um fenômeno muito estudado, mas uma situação pouco compreendida.
Jim Wright escreve que bullying é “uma situação em que um ou mais alunos (os bullies) intimidam um aluno se engajando em comportamentos destinados a prejudicá-lo. A intimidação, com freqüência se direciona a uma mesma vitima, é repetida ao longo do tempo. A criança que pratica bully domina sua vitima por possuir mais poder. Comparado a sua vitima, por exemplo, o tirano pode ser fisicamente mais forte, ou inteligente, ter um maior circulo de amigos, possuir uma situação social melhor. O bully pode causar danos físicos, emocionais ou constrangimentos, ou humilhação social”. (WRIGHT, 2004, p. 3)
Outros autores recorrem a própria palavra para explicar o fenômeno; assim pode-se encontrar que bully advém da palavra “inglesa que adotada em muitos países define ‘o desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la sobtensão’” (TATUM e HERBERT, 1999 apud FANTE; PEDRA, 2008, p. 33).
Bullying também pode ser considerado como: “todas as atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro ou outros, causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder, tornando possível a intimidação da vítima” (LOPES NETO E SAAVEDRA, 2003 apud FANTE; PEDRA, 2008).
Outras definições mais detalhadas afirmam que os atos de bullying “compreendem; Físico: bater, chutar, beliscar. Verbal: apelidar, xingar, zoar. Moral: difamar, caluniar, discriminar. Sexual: abusar, assediar, insinuar. Psicológico: intimidar, ameaçar, perseguir. Material: furtar, roubar, destroçar pertences. E Virtual: zoar, discriminar, difamar por meio de Internet e celular. Percebe-se que a vítima recebe ataques conjugados, utilizando-se para isso várias formas de maus-tratos, inclusive a exclusão social”(GONSALVES, GONSALVES, LIMA, 2009, p. 3)
O termo bully pode ser traduzido como valentão, tirano, brigão. Em inglês, o verbo bully: significa tiranizar, amedrontar, brutalizar, oprimir, já o substantivo bullying: significa o conjunto de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully) ou grupo de indivíduos objetivando intimidar ou agredir outro indivíduo ou grupo de indivíduos incapaz de se defender (FANTE; PEDRA, 2008).
Vamos separar algumas coisas na construção do conceito do que é bully: sempre há um agressor (ou grupo de agressores) e um agredido; a agressão é intencional e recorrente em outros termos consciente e repetitiva. Quanto a forma concreta como age o bully, Jim Wright considera existirem duas: uma forma direta que ocorre quando agressor e vítima estão frente a frente, e uma forma indireta que acontece quando o bullying acontece quando a vitima não esta por perto.
A partir dessas considerações podemos construir o seguinte panorama, o bully ocorre quando um (ou grupo) valentão, brigão ou tirano, abusa intencionalmente de forma física – verbal – moral – sexual – virtual – material – ou – psicologicamente (conjugados ou não), de maneira contínua, por certo período de tempo, direta ou indiretamente, uma (ou grupo) vítima, incapaz de se defender, causando exclusão (humilhação) social – stress – medo – baixa auto-estima – perdas materiais – angustia – danos físicos – ou – constrangimentos entre outros (conjugadas ou não).
Podemos apresentar a mesma idéia de modo mais simples: o bullying ocorre quando um(s) individuo(s) acredita(m) ser(em) melhor que outro(s), e se utiliza(m) dessa crença para humilhar sua(s) vítima(s) de alguma maneira, de maneira contínua.
Porém, algumas perguntas ainda permanecem, o porquê o agressor age desta maneira e, em caso de bullying na escola, o que o professor pode fazer.
Masarie (s.d.) apresenta uma razão pelo comportamento de bullying por parte das crianças, ela afirma que: “uma coisa que sabemos é que os autores são ensinados ao bully. Eles (as crianças) não nascem dessa forma. Pode ser seu temperamento subjacente, combinado com influências a partir de casa, escola, comunidade e meios de comunicação que permitem o comportamento provocador florescer”.
Essa razão é desconcertante, pois afirma que o comportamento de bullyng é aprendido; e não delimita sua origem na família, na sociedade, na cultura, ou na internet, vídeo-games e t.v., aquela autora inclui a escola na equação.
Se considerarmos o bully como um comportamento aprendido, a influência da escola nos casos de bully pode ter duas fontes. Uma no comportamento do professor. Outra, na ausência de comprometimento e atenção para com as crianças, tanto a agressora quanto a agredida, em outros termos na anuência com o bullying.
Outros agentes que “ensinam” as crianças ao comportamento de bullying advém de situações cotidianas que a criança aceita como normais. Entre elas Masarie chama a atenção para: xingamentos, vinganças, comunidade violenta, transferência de problemas domésticos, habilidades sociais deficientes, raiva descontrolada, “a melhor defesa é o ataque”, poder, reconhecimento, não ser legal, elevada auto-estima, baixa auto-estima, competições, não encaixamento social, modelo parental pobre, código de comportamento, honra, humor, entretenimento, ou pressão do grupo.
Podemos identificar ao menos três dimensões nessas situações cotidianas, a familiar, a pessoal e a social.
Quanto a dimensão familiar, transferência de problemas domésticos, modelo parental pobre; sendo a criança mais fraca na relação familiar ela re-direciona os comportamentos aprendidos a outras crianças mais fracas. Assim, nesse modelo a criança acredita estar certa nos comportamentos agressivos, pois os vê sendo praticados todos os dias em diversas situações.
Quanto a dimensão pessoal, auto-estima elevada ou baixa, raiva descontrolada; nesses fatores a criança se utiliza de comportamentos aprendidos para se defender ou atacar (para se defender) de outras crianças que potencialmente também podem identificar suas características diferentes; a lógica psicológica por traz desse raciocínio é apontar a diferença do outro para não enxergarem a sua. Quanto a raiva descontrolada ela ocorreria na esteira do re-direcionamento de abusos sofridos.
Quanto a dimensão social; xingamentos, vinganças, comunidade violenta, habilidades sociais deficientes, “a melhor defesa é o ataque”, poder, reconhecimento, não ser legal, competições, não encaixamento social, código de comportamento, honra, humor, entretenimento, ou pressão do grupo; todos esses fatores possuem o mesmo funcionamento, o de modelar o comportamento da criança que acredita estar agindo de acordo com as regras sociais.
Alguns não aceitarão a inclusão de algum fator em uma determinada dimensão, até mesmo essas três dimensões podem ser questionadas, elas são simplesmente elucidativas; porém existem três constantes nesses fatores: a criança acredita estar agindo corretamente, quem não a entende são os outros, os agredidos e alguns adultos; a segunda é que esse comportamento é intencional; e por último, em todos esses fatores o comportamento de bully foi aprendido, mesmo na dimensão pessoal.
Sendo a escola a instituição onde seus profissionais estão qualificados a ensinar, o que eles podem fazer sobre as ocorrências de bully?
A seguir apresentamos uma proposta de estratégia para se trabalhar o tema na escola, algumas delas são retiradas de Wright (2004). Elas estão apresentas sequencialmente, mas sua ordem não precisa ser necessariamente observada.
Primeiro: realizar um evento interno que esclareça aos alunos o que é bully, assédio moral, agressividade entre outros comportamentos abusivos; também se deve ressaltar os valores importantes ao convívio social, respeito, gentileza e educação entre outros; fazer a criança compreender a idéia de empatia.
Segundo: realizar um evento externo com pais e comunidade esclarecendo sobre os mesmos pontos, também se deve ressaltar a importância do modelo familiar e como o exemplo dos pais é seguido pelos filhos.
Terceiro: realizar um levantamento anônimo com os alunos, na intenção de saber quantos estão sendo vítima de bullying, e quais as formas como ele se apresenta.
Quarto: desenvolver um procedimento em conjunto com os alunos que propicie a denuncia de alunos que praticam bully. Esse procedimento não deve, na medida do possível, ser anônimo; obviamente se deve ter em mente que represálias podem acontecer, porém o fato de se conhecer o agressor e a vítima favorece a conversa franca, também facilita a observação de seus comportamentos.
Quinto: desenvolver um projeto contínuo e em longo prazo, com ações direcionadas aos eventos relatados nas denuncias. Dessa maneira pequenos atos podem ser identificados e sua reincidência minimizada.
Sexto: estabelecer uma política de contínua aproximação com os pais.
Sétimo: monitorar os resultados.
Conclusão
Após essas considerações, podemos perceber que o bully ainda é um fenômeno estranho e pouco conhecido nas escolas. Da mesma forma que as conseqüências se apresentam a todos os envolvidos; todos devem buscar a solução em conjunto. Quem agride deve aprender a uma nova classe de comportamentos; quem é agredido deve aprender que o problema não é consigo, a família deve aprender como educar, a escola deve facilitar tais aprendizagens.
Referências
FANTE, C.; PEDRA, J. A. Bullying escolar: perguntas e respostas. Porto Alegre: ArtMed, 2008.
GONSALVES, S. R.; GONSALVES, M. V.; LIMA, J. F. A linguagem do bullying: a violência refletindo na fala e escrita dos adolescentes. Disponível em: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/3178_1526.pdf , acesso em 10/05/2010.
MASARIE, K. Some Reasons kids bully? Disponível em: http://www.stopbullyingnow.com/Some%20reasons%20why%20%20kids%20bully.pdf acesso em 5/05/2010.
WRIGHT, J. Preventing classroom bullying: what teachers can do. Disponível em: http://www.jimwrightonline.com/pdfdocs/bully/bullyBooklet.pdf acesso em 5/05/2010.