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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Minha ausência, e bolinhas de papel.

Não tenho postado muita coisa ultimamente. Peço desculpas por isso. Fui contratado pelo colégio SESI (40hs) para aulas de Psicologia ensino médio, então meus horários ainda não estão muito certos... mas já já volto a postar. Tem ocorrido muitas coisas estranhas... Uma delas, é que minhas aulas estão concorridas de mais para alunos entre 14 e 18 anos. Alunos do período da tarde vêm pela manhã para assistir minhas aulas, outros ficam mais tempo na escola até o período da tarde para assistir a outra aula, alguns que já assistiram a aula vêm pedir que eu de a mesma aula novamente, turmas que ficam sabendo de outras aulas pedem que eu faça a mesma com eles, alguns alunos ficavam na janela do lado de fora da sala para assistir a aula (até eu convidar para eles entrarem, o que tem gerado certo ciúme da turma), nenhum aluno matou aula para assistir minha aula. Uma coisa que fiz com eles foi o seguinte: uma aposta; quem fosse elogiado na sala dos professores por ser bem educado, eu pagaria um lanche (refri+salgado); obviamente, quem já ficou mais de 5 minutos em uma sala dos professores sabe que isso é quase impossível... (dica quanto a aposta, quando você aposta com o aluno e ele tem que pagar, isso vai criar problemas – muitos problemas – agora, quando é você quem paga – sem custo ao aluno – o problema maior é escolher algo que você sabe que vai ser difícil dele alcançar, assim caso eles comecem a ficar desanimados com a aposta vale a pena “pagar o lanche” mesmo a alguém que não tenha ganho, isso vai incentivá-los mais ainda. Fico devendo uma descrição mais detalhada da indisciplina escolar no método SESI / ensino médio. O que eu gostaria de mostrar aqui, é um vídeo que uma aluna gravou (e postou no yotube)de uma aula minha. A aula tem 50 minutos, desses 5 foram gastos em pô-los para dentro da sala, 5 minutos para fazer a chamada, 15 minutos de guerrinha de bolinhas de papel, 5 minutos para acalmar a turma, 20 minutos MUITO BEM APROVEITADOS em falar sobre agressividade, educação e respeito (e fazer a aposta). TODOS OS ALUNOS QUE TIVERAM ESSA AULA (falam de coração) bom dia, obrigado, por favor, ajudam os colegas, não usam mais apelidos nem fazem outro tipo de bully. Relato: teve uma turma que eu me confundi e fui realizar a mesma atividade (guerrinha de bolinhas de papel) conversamos por uns 10 minutos onde eu dei a devolutiva da aula anterior e como eles estavam bem comportados disse “vocês merecem, então vamos fazer mais uma guerrinha de bolinhas de papel”, eles brincaram por 15 minutos até que um aluno pegou o cesto de lixo passou pela sala recolhendo as bolinhas, todos jogaram fora as bolinhas aproveitando para ajuntar o lixo do chão, organizaram a sala, sentaram e fizeram silêncio... isso tudo sem eu precisar mandar, gritar, nem nada... Bem, fica a parte do vídeo que um aluno gravou. Até a próxima...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Porque vilões são doutores?

A produção cultural da indisciplina escolar, um início.

Alguns de vocês já devem ter notado que geralmente os vilões possuem uma inteligência superior. Deixando o mais claro possível: os vilões normalmente são doutores; alguns até ex-professores.

Vamos por partes; de onde vem esse “vilão” a qual me refiro? A idéia de vilão pode ter diversas abordagens, porém, aqui me refiro à vinculação daquilo que pode ser identificado como um “vilão+doutor” que é comumente chamado de “cientista maluco”; em outros termos, alguém com formação de nível superior (ou acima) que se comporta de maneira que busca o malefício de outros é chamado de “cientista maluco” (ou cientista louco). Normalmente o “cientista louco” busca a “dominação mundial”, dinheiro, ou a destruição de algo ou alguém.

Na idéia de “cientista maluco” existe uma separação que ocorre em torno de 1945. Antes de 45, os “cientistas loucos” se encontravam principalmente nas páginas dos livros, normalmente na pele de médicos, por exemplo: Dr. Frankenstein, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Dr. Moreau (da Ilha do Dr. Moreau), Dr. Griffin (de O Homem Invisível), Dr. Caligari (do filme de 1919 A cabine do Dr. Caligari), Dr. C. A. Rotwang (do filme de 1927 Metropolis), Dr. Fausto, entre inúmeros outros. Normalmente esses cientistas loucos desenvolviam algo que ia contra a “natureza humana” pondo em risco certos valores morais ou éticos importantes à época.

Após a Segunda Grande Guerra com a invenção da bomba atômica, e com a identificação das loucuras dos médicos nazistas, esses “cientistas malucos” ficaram mais reais, passou a haver a possibilidade de que ao menos um deles pudesse existir de verdade (ex. Dr. Menguele). Com o desenvolvimento do cinema, alguns vilões ganharam fama, como por exemplo: Dr. Julius No (do Satânico Dr. No, inimigo de James Bond), Dr. Eldon Tyrell (do filme Blade Runner), Dr. Durand Durand (do filme Barbarela), o próprio Dr. Frankenstein, Dr. Hannibal Lecter, Dr. Totenkopf (do filme Capitão Sky e o mundo do amanhã).

Nesse meio tempo os maiores divulgadores e “inventores” de cientistas malucos foram as Histórias em Quadrinhos (H.Q.), com um número quase inimaginável desses, por exemplo: Dr. Destino, Dr. Sinistro, Dr. Eduard Nigma, Lex Lutor, Dr. Silvana (inimigo do Capitão Marvel), Norman Osborn (Duende Verde inimigo do Homem Aranha), Dr. Curt Connors (o Lagarto inimigo do Homem Aranha), Otto Octavius (Dr. Octupus inimigo do Homem Aranha), Magneto, Hugo Strange, Dr. Jonathan Crane (Espantalho), Pamela Isley (Hera Venenosa), Victor Fries (Mr. Freeze), Kirk Langstrom, Caveira Vermelha, Dr. Mindbender (G.I. Joe), Dr. August Hopper; entre tantos e tantos outros...

É esse ponto que me interessa, por dois principais motivos, pelo público alvo e pela autoria. O principal público alvo das H.Q.s são (ou ao menos eram) as crianças que as lêem (ou liam) até em sala durante as aulas. Assim a imagem e principalmente a idéia de “cientista louco” atinge diretamente as crianças.

A imagem que atinge as crianças é mais ou menos essa, quem estuda muito tem chance de se tornar doutor, se, se deseja algo que não deve ou é contra a lei você pode vir a ser um vilão;
e se há o azar de se enlouquecer no meio do caminho, você pode vir a tornar-se um cientista louco! E você nem precisa enlouquecer, a simples soma de intenção desviada com inteligência superior é igual a cientista maluco.
Como assíduo leitor dessas histórias, devo afirmar que essa idéia nunca passou pela minha cabeça quando era criança. E a pergunta se torna a seguinte, isso foi intencional? (e uma pergunta para o futuro, isso ajudou na fetichisação da idéia de ser um vilão?)


São três as hipóteses vinculadas a uma resposta para a pergunta da intencionalidade de transmitir a idéia que vincula vilania a estudos.

Infelizmente não consigo lembrar onde eu li isso, portanto, se você achar essa afirmação em outro lugar, por favor, me avise para que eu possa dar o crédito à pessoa certa. A primeira hipótese esta ligada ao psiquiatra americano Fredric Wertham que publicou o livro “Seduction of the Innocent” de 1954 (um livro que tive o prazer de ler, bem peculiar devo dizer), nesse livro Wertham afirma que as H.Q.’s são as responsáveis pela delinquência juvenil (no Brasil, não houve uma tradução integral, algumas partes foram traduzidas em forma de artigos de jornal na mesma década). A hipótese é de que os autores de H.Q.’s “xateados” com tal psiquiatra personificaram os vilões como doutores que fazem o “mau”, uma espécie de vingança.

A segunda hipótese simplista posso dizer, é a de que os vilões precisam ser inteligentes para por em prática seus planos de dominação mundial. Os heróis precisam, basicamente, de força e amigos.

A outra hipótese (minha acredito, salvo aviso de leitores) considera que os autores das H.Q.’s, normalmente jovens que não concluíram o ensino superior (ainda bem!!! devo ressaltar), que possuem uma criatividade elevada, uma imaginação muito grande, devem ter sido alvo constantes de sanções disciplinares dos professores de sua época escolar. Assim os que lhe fizeram “mal” se transformam em vilões durante suas imaginações em sala de aula.

Essa última afirmação considera que os autores das H.Q.’s eram tidos como indisciplinados por seus professores justamente por não estarem “prestando atenção” na aula, no “mundo da lua”, o que pode ser confirmado pela história de desqualificação literária e artística das H.Q.’s pelos professores e sociedade (no Brasil H.Q.’s foram queimadas em praças públicas). Assim os alunos indisciplinados ou “artistas” não teriam um futuro promissor caso estivessem dedicados a essa “cultura popular” desviada.

Esse vínculo entre indisciplina escolar e cultura popular estaria, de maneira muito tênue ainda, demonstrando que a indisciplina escolar também teria uma parcela externa a escola, indisciplinados também seriam aqueles alunos que preferissem uma cultura popular em detrimento de uma cultura acadêmica.

Por favor, me contradigam!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Indisciplina docente.

Quando um professor faz algo diferente em sala de aula, como por exemplo usar RPG, HQ, ou pinta a cabeça para mostrar a anatomia cerebral na intenção de exemplificar na prática como os distúrbios de aprendizagem funcionam de maneira dinâmica, isso é indisciplina docente?
Ocorreu o seguinte, fui chamado para uma aula de pós-graduação, e a matéria era Distúrbios de Aprendizagem, o contratante pediu especificamente por imagens de ressonâncias magnéticas onde aparecessem os distúrbios... revirei a internet atrás dessas imagens, quem já tentou fazer essa pesquisa sabe da dificuldade em encontrá-las, e as que se encontram estão tão ruins que não valem a pena usar (somando-se o copyright das imagens). Isso sem falar da questão teórica sobre a confirmação da alteração anatômica neurológica vinculada ao distúrbio.
Voltando, um outro motivo pelo qual fui chamado para essa aula é que eu mesmo possuo distúrbio(S) de aprendizagem; dislexia, dislalia, discalculia, ambidestria. E quem sabe foi por isso que resolvi desenhar na minha própria cabeça a anatomia funcional do cérebro. (Para que eu mesmo também pudesse entender um pouco mais do conteúdo, baseando-me em Janusz Korczak.)
A aula era a distância via TV com 9.000 alunos, a aula foi muito bem, os alunos gostaram, participaram, os contratantes também, a equipe técnica comentou bastante e passei a ser conhecido como professor de tatuagem na cabeça.
Mas então, algo estranho aconteceu, os outros professores do curso passaram a não falar mais comigo, e passaram a criticar minha didática. Em um primeiro momento pensei que tratava de impressão minha (quando falam pelas costas é só uma sensação), mas até uma professora vir a mim e explicitamente criticar minha atitude porque ela tirava a atenção da matéria do conteúdo e a colocava no dito desenho; tive certeza de que alguns outros professores ficaram desgostosos com minha atitude. A questão aqui não é a opinião deles, é a minha atitude; quando um professor “passa dos limites” isso é indisciplina docente? Qual o limite? (mesmo sendo careca raspei o resto para o desenho poder ser melhor visto)
Não houve quebra de contrato, não houve quebra de expectativa, e o contratante ficou satisfeito.
Inveja faz parte do discurso sobre indisciplina docente? Inveja é o caso?
Do que trata a indisciplina docente?
Segue a baixo uma foto do dito desenho SNC.



Explicando melhor, de um lado era o SNC e do outro o funcionamento anatômico.

sábado, 31 de julho de 2010

Adriano Prosperi e sua colaboração



Recentemente li um livro chamado “Dar a alma, a história de um infanticídio” de Adriano Prosperi, na página 370 ele escreve:

“as origens da irmandade se associam a um daqueles movimentos coletivos liderados por pregadores improvisados e chefes espirituais que, naquela época, davam voz a inquietudes e ansiedades generalizadas. O caminho havia sido aberto pelos Flagelantes do século anterior; em Bolonha e outras cidades formaram-se irmandades cujos traços distintivos eram a “disciplina” – isto é, o habito de fustigar-se em sinal de penitência – e o exercício das virtudes caridosas em relação ao “próximo”.

Notem como o termo disciplina está colocado de modo diferente, não só entre aspas, mas sim considerando uma comunidade social direcionada para tal finalidade.

Escrevi ao Dr. Prosperi perguntando: Tenho tentado identificar qual o primeiro registro do termo “indisciplina”, mais especificamente “indisciplina escolar”. Como a Igreja está intimamente vinculada ao desenvolvimento da instituição escolar e seus discursos, gostaria de saber se o Sr. por acaso teria identificado algum registro sobre indisciplina ou indisciplina escolar. Algumas vezes me pergunto se o termo já havia sido criado ou se é um recurso de tradutores.

A qual o Dr. Prosperi muito gentilmente respondeu:

“Dear Dr. Gross,
I hope these few notes shall be of some help to your research.

"Disciplina" (Discipline) is a word that in the Middle Ages meant not only "teaching", but also the exercise of punishment with a whip (="flagellum", "disciplina"). "Disciplinam dare" or "disciplinare" is a word meaning "to punish by whipping" (cfr. Salimbene de Adam 1281). The Confraternities of "Disciplinati" were also known as "Scuole" (Schools), due to the influence of Byzantine culture ("skolè": by instance, in Venice and Bologna). Lack of discipline, being undisciplined, were expressions originally referred to those who did not comply with the discipline. You can find an example in the “Regola di san Benedetto volgare”, Italy,sec.XIV. The volume “Disciplina dell’anima, disciplina del corpo, disciplina della società" (edd. Paolo Prodi and Carla Penuti, Il Mulino, Bologna 1994) might offer you a helpful starting.
With best regards,
Adriano Prosperi

Tradução...:
Caro Dr. Gross,
Espero que estas poucas notas devem ser de alguma ajuda para a sua pesquisa.

"Disciplina" (disciplina) é uma palavra que na Idade Média significava não apenas "ensinar", mas também a exercício de punição com um chicote (= "flagelo" disciplina "). "Disciplinam ousar" ou "disciplinare" é uma palavra que significa "punir com chicotadas" (cfr. Salimbene de Adam 1281). As Irmandades de "Disciplinati" também eram conhecidos como "Scuole" (Escolas), devido à influência da cultura bizantina ("skole": por exemplo, em Veneza e Bolonha). Falta de disciplina, a ser indisciplinado, eram expressões inicialmente previsto para quem não cumprir a disciplina. Você pode encontrar um exemplo no "Regola di San Benedetto volgare", Itália, sec.XIV. O volume "dell'Anima Disciplina, disciplina Del Corpo, disciplina della società "(edd. Paolo Prodi e Carla Penuti, Il Mulino, Bologna, 1994) pode oferecer-lhe um ponto de partida útil.
Com os melhores cumprimentos,
Adriano Prosperi.

Fica aqui meu agradecimento ao Dr. Adriano Prosperi por sua atenção e dedicação.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

DIVERSOS TIPOS DE INDISCIPLINA, DIVERSOS TIPOS DE VILÕES!

DIVERSOS TIPOS DE INDISCIPLINA, DIVERSOS TIPOS DE VILÕES!

Publicado originalmente no III Seminário INDISCIPLINA NA EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA - Curitiba - Novembro - 2007

Resumo
Este artigo apresenta um estudo sobre a indisciplina escolar, articulando de um modo criativo o discurso dos educadores sobre os alunos indisciplinados e uma descrição literária de alguns personagens de histórias em quadrinhos encontrados no universo de Batman. Iniciamos com uma breve reflexão sobre a indisciplina nos dias atuais, e destacando a questão principal que permeia este trabalho, sobre se haveriam diferentes tipos de alunos indisciplinados dentro do discurso pedagógico dos professores. Em seguida apresentamos um análise breve da história de Batman, para então abordar alguns dos principais vilões encontrados no universo das histórias em quadrinhos desse herói. Os vilões considerados na análise são: Hera Venenosa, Pingüim, Charada, Duas Caras e Coringa. Ao final desenvolvemos uma análise explorando um paralelo criativo entre as características sociais, históricas e psicológicas daqueles personagens, com o discurso pedagógico dos professores sobre os alunos indisciplinados na escola.
Palavras-chave: Educação, Indisciplina Escolar, Discurso Pedagógico, Histórias em Quadrinhos.

Considerações Iniciais

A indisciplina é vista como um dos grandes problemas educacionais nos dias atuais. São poucos os educadores, ou funcionários da escola, que não percam algumas horas do dia, ou da noite pensando em como pode melhorar o comportamento de determinado aluno. Cada estudante é visto ou entendido como responsável pela sua indisciplina, sendo que ele influencia outros colegas e este é influenciado pela turma. As tentativas de minimizar os efeitos da influencia deste aluno frente à turma, podem ir desde uma chamada de atenção, anotações na agenda, até o famoso “segurar o pontinho” . As atitudes que cada educador toma frente a indisciplina, normalmente não variam muito, já que cada um ao decorrer dos anos descobre o que funciona ou não, isso devido a sua história, conversas com outros educadores, formação, linha pedagógica, intrusões da escola, modelos, entre outros fatores. A responsabilidade da indisciplina também varia de acordo com o discurso do professor sobre o assunto, culpabilizando a família, a sociedade, as amizades, a má formação anterior e a lista poderia continuar.

Contudo, haveria diferentes tipos de alunos indisciplinados, dentro do discurso dos professores? Tentarei responder essa pergunta realizando uma analogia com os vilões encontrados no universo das histórias em quadrinhos de Batman. A escolha por este universo não se fez ao acaso; nas histórias de Batman não existem indivíduos com super poderes, mutantes, ou extra-terrestres, tornando-os mais críveis.
Batman e a Indisciplina

Torna-se relevante um breve resumo da história de Batman, por se tratar do protagonista das histórias em quadrinhos que tem esse título. Batman ou Cavaleiro das Trevas, natural de Gotham City, fez sua primeira aparição em Detective Comics, número 27, em maio de 1939, recebeu o nome de Bruce Wayne. Possui brilhante mente dedutiva, é treinado em todas as artes marciais existentes, usa um traje a prova de balas e fogo, em seu “bat-cinto” de utilidades podem ser encontrados diversos tipos de armas defensivas, máscara de gás, “kit” para análise de cena do crime, bombas de fumaça, rastreadores, micro computadores, e toda uma série de apetrechos tecnológicos. Também pilota uma série de veículos modificados como o “batmóvel”. Tem seu quartel general na “bat-caverna”, onde coleciona objetos recolhidos nos seus anos de atuação, guarda seus apetrechos tecnológicos e, onde realiza pesquisas. Sua história começa quando Bruce Wayne ainda criança , ao sair do cinema com seus pais Thomas e Martha, presencia a morte destes no “Beco do Crime” e ao lado de seus corpos jura vingá-los, sendo que aos quatorze anos sai pelo mundo em busca da melhor fonte de conhecimento, treinamento e formação possível para realizar a promessa feita aos pais (DOUGALL, 2006, p. 38 e 39). É o único que conhece a verdadeira identidade do Super Homem, simplesmente por dedução, e é também o único ser humano capaz de matar o último filho de Krypton, o Super Homem. Esta, claro não é toda a sua história e características, contudo no presente artigo focalizarei principalmente os vilões encontrados no universo encontrado em suas histórias em quadrinhos.

Vilões do Universo de Batman

Vários são os vilões encontrados nestas histórias. Todos eles com características bastante fortes, construídas, através de transformações ou fisiológicas, ou influências psicológicas e/ou sociológicas, e que podem muito bem ser analisadas sob a ótica da indisciplina escolar, como veremos a seguir.

A Hera Venenosa, uma das vilãs das aventuras do Cavaleiro das Trevas, pode nos ajudar no entendimento de outra questão relevante que não vem sendo estudada com aprofundadamente. A indisciplina do gênero feminino. Hera Venenosa fez sua primeira aparição em Batman, número 181, em junho de 1966. Seu verdadeiro nome é Pámela Lílian Isley. Botânica de formação, foi inoculada, pelo Dr. Jason Woodrue , com uma poção com a intenção de transformá-la em um ser híbrido, meio planta, meio mulher. Seu sangue transformou-se em clorofila, deixando sua pele branca como porcelana e em alguns pontos, verde como plantas. Esta vilã exala ferormônio que atrai e controla o sexo masculino e pode controlar as plantas, com o passar do tempo torna-se cada vez mais planta e menos humana o que dificulta sua captura. Fixou-se em Gotham City na intenção de cometer crimes que ajudassem sua causa, a guerrilha verde (DOUGALL, 2006, p. 243).

Analisando as condições desta vilã, podemos encontrar na população de estudantes do sexo feminino algumas características bastante interessantes que vale a pena ser caracterizado aqui.

Em pesquisa realizada por SANTOS (2004) foram identificados dados relevantes sobre o tema, a primeira delas é que garotos possuem 330% a mais de registros disciplinares no livro de ocorrência da escola pesquisada, contudo o numero de incidências indisciplinares envolvendo garotas vem aumentando. A autora também descobriu que as punições empregadas às alunas eram mais severas, mesmo essas sendo menos punidas. Isso devido ao entendimento dos professores que julgam a indisciplina das garotas mais inadequadas em comparação com as mesmas atitudes dos alunos do gênero masculino.

Alunas indisciplinadas dificilmente são identificadas, justamente por se tratarem de garotas que conseguem desviar a atenção de si mesmas para outra direção. Contudo quando identificadas chamam a atenção, não simplesmente pela indisciplina, mas também pela sua atitude não estar ligada ao imaginário do gênero. As explicações dessas indisciplinadas geralmente possuem uma fundamentação teórica e ideológica plausíveis. Não uma guerrilha verde, mas uma melhora na qualidade da aula, na melhora da relação professor aluno, do implemento de atitudes de outros na tentativa de que esses outros melhorem, diminuição de tarefa para casa, entre outros. O “jeitinho” de garotas indisciplinadas em burlar regras e limites está intimamente ligado ao imaginário que estas possuem junto a professores e professoras; conversas paralelas, cortar o cabelo, pintar a unha, escrever e passar bilhetes na aula além de outras atitudes de indisciplina parecem incomodar em menor escala que atitudes similares realizadas por garotos. Garotas em algumas situações também parecem influenciar o sexo oposto a incidir na indisciplina em sala de aula, um pedido para que o garoto passe bilhetes, levantar-se para ir ao lixo, estimular conversas paralelas, influenciar opiniões, sem contar possíveis distrações em outros contextos. Estrela (1994, p. 58) escreve que as intervenções de educadores podem estar ligadas ao gênero, sendo que alguns privilegiam alunos do mesmo sexo, e outros privilegiam alunos do sexo oposto. A mesma autora também escreve que as intervenções não estão ligadas somente as representações conscientes dos papéis sociais de gênero, mas também, das articulações simbólicas e imaginárias que a escola desperta (p. 58). “Contudo, os professores tendem a ter expectativas mais elevadas quanto às performances acadêmicas dos rapazes” (ESTRELA, 1994, p. 58).

Outro dos vilões encontrados no universo de Batman é o famoso Pingüim. Esse personagem fez sua primeira aparição em Detective Comics, número 58, dezembro de 1941. Ele recebeu o nome de Osvald Chesterfild Cobblepot. Abandonado pela sua família verdadeira, foi criado por uma senhora que cuidava de um aviário, que o obrigava a sempre carregar seu guarda-chuva por precaução. Ganhou seu apelido na escola, quando seus colegas o chamavam de Osvald o Pingüim. Com o tempo conseguiu junto ao cientista Harold um equipamento que controla a mente de aves, fazendo-as cometer crimes (DOUGALL, 2006, p. 237). Mas como um vilão deste pode nos remeter à indisciplina?

A primeira delas é a tradicional atribuição da culpa pela indisciplina dos alunos à família, Rego (1996, p. 88), em entrevistas realizadas junto a educadores, discorre sobre algumas expressões que justificam: “A maior parte dos meus alunos vem de lares desestruturados, são filhos de pais separados, por isso apresentam este comportamento tão agressivo”. Outro professor fala que “o problema da indisciplina está associado à desvalorização da escola por parte dos pais [...]” (REGO, 1996, p. 88). Na fala de outro professor “Se os próprios pais não sabem dar limites eu é que não vou dar.” (REGO, 1996, p. 88). A mesma autora continua (p. 89) e escreve: “Neste caso, a responsabilidade pelo comportamento do aluno na escola parece ser única e exclusivamente da família. Novamente a escola se isenta de uma revisão interna, já que o problema é deslocado para fora de seu domínio”. O próprio Pingüim já atribuiu à sua família seu desvio de comportamento. O problema se torna tão grande que se pode ver na genética suas características. Genética herdada provavelmente de sua ascendência familiar, nota-se logo de onde ele vem. Como alguém com essa genética pode ser alguém decente? Falando do Pingüim, somente três dedos , um nariz proeminente, baixa estatura, gorducho. A mãe adotiva do Pingüim também não parece muito fácil de se lidar, obrigá-lo a sempre carregar um guarda-chuva, mesmo em dias de sol, demonstra um nicho familiar autoritário, indo ao encontro de outra frase de professor que culpabiliza a família pelas atitudes do aluno: “Esta criança tem uma criação familiar totalmente autoritária, está acostumada a apanhar e a receber severos castigos, por esta razão não consegue viver em ambientes democráticos” (REGO,1996, p. 88). Agora, tendo o vilão em mente, foi a família do Pingüim que o transformou em vilão sendo alheia a função da escola formar esse cidadão?

Outro partícipe do universo de Batman é o vilão Charada, que fez sua primeira aparição em Detective Comics, número 140, outubro de 1948. Ele recebeu o nome de Edward Nigma's, um professor primário, que dava aos seus alunos pequenos enigmas para ver quem os desvendava mais rapidamente. Após um tempo formou-se em Psiquiatria. Foi o primeiro dos vilões a desvendar a charada da verdadeira identidade de Batman. Uma de suas principais características é não conseguir realizar um crime sem primeiro enviar uma charada ao Batman ou as autoridades, que caso a desvendem conseguiriam evitar o crime (DOUGALL, 2006, p. 258).

Alunos “Charada” podem ser assim identificados quando não se entende o comportamento do aluno. Vejamos, um aluno extremamente inteligente, afinal o charada é Doutor; que questiona o professor, que emite sinais claros de que vai incorrer em indisciplina, o Charada sempre manda uma mensagem implorando para que o capturem e façam-no parar de cometer crimes; que consegue descobrir a real intenção por traz das atitudes de controle do professor, o Charada descobriu a identidade secreta do Batman; que faz com que o professor consiga correr atrás dele e muitas vezes não o alcançar, o Charada nem sempre é capturado. Mas, principalmente, o que faz com que o professor não o compreenda? “A necessidade concreta de normatização social institui o discurso do limite como elemento regulador das relações, imprimindo-lhe um caráter fundamentalmente restritivo” (ROUGE, 2001, p.16). Ou seja o professor tenta normatizar as atitudes dos alunos, diminuindo seus questionamentos. “O educador, tal como o alunos, não entende o significado e a razão de ser da indisciplina” (TULESKI, 2005, p.129) Sendo que esse não entendimento gera um questionamento. Provavelmente o fator mais interessante encontrado neste aluno é que ele faz o professor se questionar sempre.

Duas-Caras é outro vilão do universo de Batman. Fez sua estréia em Detective Comics, número 66, em agosto de 1942. Ele recebeu o nome Harvey Dent quando criança foi abusado, causando uma cisão em sua personalidade, fora Promotor de Justiça de Gotham City. Durante esse tempo um acusado jogando ácido em seu rosto deforma-o do lado esquerdo, trazendo a tona sua dualidade de personalidade. Sempre, antes e durante ao cometer um crime joga sua moeda da sorte . Sendo que a moeda escolhe quem vive, quem more; se um crime será realizado ou não (DOUGALL, 2006, p. 317).

Um aluno que aparentemente é disciplinado, mas que sem aviso aparente, faz algo que deixa o professor perdido? Em uma conversa informal que tive com um professor a alguns anos atrás, esse me disse “parece que ele joga com a sorte”. Um aluno inteligente, o Duas-Caras das histórias em quadrinhos é formado em Direito. Aquele aluno que, após ocorrida a indisciplina o professor pensa consigo mesmo, “quem vê cara não vê coração”. Aquele aluno, que após ser posto para fora da sala, na presença do diretor, ou do coordenador, ou do monitor, quem a escola determinar a cuidar dos assuntos disciplinares, e até mesmo na frente dos pais, diz em uma voz “choramingoza” “não fiz nada”. Aparentemente este aluno tem uma força interna que o faz ser indisciplinado em momentos e lugares que normalmente não se esperaria isso dele, quase uma personalidade cindida, e quantas vezes o professor não pede a família um laudo psicológico, para tentar compreende-lo? Esse aluno sempre tem algo de “bom” e algo de “ruim”.

Dentre tantos outros vilões “indisciplinados”, chegamos talvez ao mais famoso de todos, o Coringa, ou o Príncipe do Crime. Fez sua primeira aparição em Batman, número 1, na primavera de 1940. Seu nome verdadeiro é desconhecido, mas seu alter-ego anterior era chamado de “gorro vermelho”. Caçado pelo Batman, caiu em um tonel tóxico, deixando-o insano, sua pele branca, seu cabelo verde e o indefectível sorriso estampado em seu rosto. Foi certificado como louco no Asilo de Arkham de Gotham City. Até hoje não foi morto pelo Batman, tendo morrido uma vez na tentativa de fugir da penitenciária, foi ressuscitado pelo Batman para que não fugisse à justiça. Usa um gás tóxico que além de matar deixa a vitima com um sorriso angustiado no rosto (DOUGALL, 2006, p. 160-161).

O pior tipo de aluno indisciplinado. Aquele aluno que não atende a nada que os professores, administração, corpo pedagógico, tentam para minimizar sua indisciplina. Mudança de turma, mudança de lugar, bilhetes para casa, expulsão; laudos psicológicos atestam desde Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (deveria tomar medicamentos pesados com anuência de um psiquiatra) até, psicopatologias mais graves como psicopata e esquizofrenia; falta de suporte familiar, falta de uma figura paterna presente e atuante, falta de limites dados pelos cuidadores, ambiente sócio-cultural desregulado, entram no rol de acusações, responsáveis e culpados. Sua fama o precede, os professores avisam uns aos outros antes de enfrentá-lo pela primeira vez. Em conselhos de classe não há salvação. Sua ficha corrida é a mais volumosa do arquivo, o livro de ocorrências deveria ter um capítulo com seu nome. Diariamente é visto pelos corredores, banheiros, quadras, sala do orientador, sala do diretor, mas, dificilmente é visto em sala de aula. Sua criatividade em indisciplina só é superada pelo entendimento geral de que é um delinqüente incorrigível. Todas as técnicas feticisadas não surtiram efeito.

Alguns professores compreendem que a manifestação em maior ou menor grau de indisciplina, é relacionada a traços de personalidade de cada aluno (REGO, 1996, p. 89). Para exemplificar a autora cita (p. 89): “Fulano é terrível, não tem jeito! Sicrano nasceu rebelde o que posso fazer?”. Atribuindo a responsabilidade à criança e a concepção inatista do desenvolvimento, acreditando em fatores endógenos, portanto, independentes da aprendizagem e do universo cultural. (REGO, 1996, p. 89) Uma outra versão do inatismo também pressupõe “a existência de características universais que se manifestarão em estágios previstos, independente das vivencias realizadas em determinada cultura” (REGO, 1996, p. 89).

Considerações Finais

Uma das conclusões, após essas considerações, é que aparentemente os alunos podem ser segmentados de acordo com sua indisciplina, entendida pelo ponto de vista, explicação, e justificativa encontrada no discurso dos professores. Família, genético, sociedade e transtorno psíquico são alguns dos responsáveis pela indisciplina segundo o corpo docente. Algumas vezes essas explicações encontradas pelo corpo docente são justificadas através de uma pesquisa minuciosa da história do aluno, do pedido de um laudo psicológico, de conversas com outros professores; e ao menor sinal de uma informação que embase a teoria do professor, ela é tida como verdade. Sendo que algumas vezes essa opinião invalida os próprios laudos e levantamentos pedidos pelo professor.

O presente artigo tentou fazer uma ponte entre dois universos paralelos que atuam um na mente de professores e outro na dos alunos, a indisciplina e histórias em quadrinhos. Na intenção de que professores comessem a entender um pouco mais de seus próprios discursos com uma fala supostamente infantilizada, trazendo-os a uma pergunta final. Com tantos vilões em sala de aula, o professor esta tentando se tornar um Batman na luta contra o “crime” da indisciplina ou um professor em busca de entendimento?

Referências
DOUGALL,A. The DC Comics Encyclopedia: the definitive guide to the characters of the DC universe. China: DK, 2006.
ESTRELA, Maria Teresa. Relação pedagógica, disciplina e indisciplina na aula. Porto: Porto, 1994.
REGO, Teresa Cristina. A indisciplina e o processo educativo: uma análise na perspectiva vygotskiana. In: AQUINO, Julio Gropppa (Org.).
Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996.
ROUGE S.A. G. Concepções de indisciplina escolar e limites do
psicologismo na educação. In ANAIS. 24a. Reunião Anual da ANPED,
Caxambu: Amped, 2001.
SANTOS, Lílian Piorkowsky. Garotas indisciplinadas numa escola de ensino médio sob o enfoque de gênero. Dissertação de Mestrado USP, 2004.
TULESKI, S.C. Voltando o olhar para o professor: a psicologia e pedagogia caminhando juntas. Revista do Departamento de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 129-137, jan./jun. 2005.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Indisciplina...

Aos professores:

Ninguém aprende sem disciplina,
mas aprender autenticamente é coisa
que só combina com indisciplina,
se for realmente algo criativo e crítico.
(Pedro Demo 1999)




Entenderam...?

Vontaremos a esse texto de P. Demo mais a frente...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO DA INDISCIPLINA

CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO DA INDISCIPLINA

O presente texto trata da constituição do sujeito identificado no discurso pedagógico sobre indisciplina escolar em três textos considerados Riboulet (1963), Vasconcelos (2003) e Aquino (2003).
Existe certa similaridade que permeia a idéia de sujeito no discurso pedagógico dos três autores: o entendimento de que o aluno necessita ser elevado a condição adulta pela educação, tendo o professor como o responsável por iluminá-lo.
Riboulet (1963, p. 175) escreve: ”para que o subordinado chegue a submissão perfeita, que surja uma circunstância extraordinária, uma crise moral, exija intervenção. (...) ao delinqüente”. Em Vasconcelos (2003, p. 474) encontramos: “a moral vem do respeito que adquirimos as regras e esse respeito começa no respeito que temos pelas pessoas que nos impõe tais regras”. E Aquino (2003, p. 384) adverte: “que a intervenção pedagógica não está se processando a contento” e que o “efeito mais evidente é o de que as regras de convívio e funcionamento do campo não estão sendo respeitadas, legitimadas pelos alunos”.
Os três autores, em maior ou menor grau, aprofundamento, e sob pontos de vista diferentes, consideram o aluno em um nível diferenciado ao do professor, necessitando deste a orientação para compreender e adentrar ao mundo adulto. Esta afirmação está ligada a concepção iluminista de sujeito, que, para ser considerado homem civil deve obedecer a razão, “encarnada na vontade geral” (ROUANET, 1996, p. 203).
Conforme afirma Rouanet (1996, p. 302), o que está em jogo não é uma tomada de posição contra ou a favor do Iluminismo, contra ou a favor da razão e da crítica, “é um combate totalmente contemporâneo, em vista da ressurgência da direita, e de um novo irracionalismo que desponta” (p. 302).
Boufleuer (2006, p. 310) escreve:

A moderna educação, pelo visto, vai se justificar enquanto ação de condução das novas gerações a ‘luz’ da razão, precavendo elas das ‘trevas’ da ignorância e da tirania dos poderes baseados na supertição, nos dogmas e no obscurantismo e que atendam contra a felicidade neste mundo. A educação vai se fazer necessária como medida preventiva contra o retrocesso ao antigo regime e a tradição medieval, bem como ação preparatória para uma sociedade que ainda é mais projeto do que realidade.

Kant (1724-1804) (1999, p. 14) afirma: “o homem não pode se tornar um verdadeiro homem senão pela educação. Ele é aquilo que a educação dele faz”. Esta afirmação de Kant faz remissão a outros três conceitos relacionados: disciplina, regra e felicidade.
De acordo com Caygill (2000, p. 104), para Kant, disciplina é entendida como “a coação graças a qual a tendência permanente que nos leva a desviar-nos de certas regras é finalmente extirpada”. Regra, para Kant, possui dois sentidos como condição e processo; o primeiro sentido é a regra prática, “é sempre um produto de razão, porque prescreve a ação como um meio para um efeito que é seu propósito”; o segundo sentido é a regra de habilidade, “como essa regra é aplicada a fim de se atingir um determinado fim” (CAYGILL, 2000, p. 277). Kant vincula felicidade opositivamente a liberdade (princípio de liberdade do legislador interno, ou eleuteronomia), e afirma que, caso o princípio de felicidade (eudaimonismo) seja o princípio de ação, o resultado será a eutanásia de toda a moral (CAYGILL, 2000, p. 148). Para Kant (1991, p. 43 apud CAYGILL, 2000, p. 148), “a humanidade ‘não deve participar de qualquer felicidade ou perfeição a não ser aquela que [os seres humanos] obtiveram por si mesmos sem intervenção do instinto e por sua própria razão”.
Conforme Souza (2003, p. 122), o movimento iluminista “encontra sua força no argumento racionalista que concebe o homem como constituído pela razão”, ou seja, “dotado dos instrumentos necessários a sua autonomia, cabendo a sua consciência organizar a vida associativa de acordo com os princípios da liberdade e da igualdade”. Em outras palavras, segundo o ideário do Iluminismo, em decorrência da sua constituição racional dos seres humanos “poderiam assumir a maioridade cognoscente e política, viabilizada, no plano político, pela implantação da idéia da igualdade e da liberdade, e, no plano social, pela extensão do conhecimento através da disseminação da educação”.
De qualquer modo, o aluno entendido por natureza como mal deve ser descrito imparcialmente, sem julgamento de valor e se a natureza é o mal, para modificá-la é preciso praticar o crime. “Punindo o crime, a moral é contrária a natureza”, ela é, portanto, “puramente convencional e não somente convencional e não somente não se funda na natureza como está em contradição direta com ela” (ROUANET, 1996, p. 213, 214).
Esse sujeito presente no discurso pedagógico sobre indisciplina escolar demonstra não só o entendimento que o professor possui da posição do aluno, mas também o percurso que este aluno deve percorrer para alcançar o estatus de adulto.
A felicidade, a natureza e o mal devem ser transpostos pela educação, mediante a supervisão de um adulto, para possibilitar ao aluno alçar a liberdade vinculada a moral e a racionalidade. Isso, segundo Meirieu (2002, p. 138), apresenta uma contradição entre a “educação como reconhecimento de um sujeito já existente e a educação como formação de um sujeito que só terá esse estatuto no final do processo educativo”.

Neste ponto, então, podemos considerar que, indisciplina escolar pela ótica do discurso, se exibe como uma tentativa de o aluno se afirmar como sujeito com certa parcela de razão e que não é reconhecido pelo professor.

REFERÊNCIAS


AQUINO, J. G. Disciplina e indisciplina como representações da educação contemporânea. In: BARBOSA, R.L.L. (Org.). Formação de educadores: desafios e perspectivas. São Paulo: UNESP, 2003. p. 377–385.
BOUFLEUR, J. P. O paradigma da comunicação e a re-configuração do espaço pedagógico. In: TREVISAN, A. M.; TOMAZETTI, E. M. (Org.). Cultura e alteridade. Ijuí: Unijuí, 2006. p. 143 – 155.
CAYGILL, H. Dicionário Kant. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
CAMBRIDGE; Cambridge Advanced Learners Dictionary, 3. ed. São Paulo: Cambridge do Brasil, 2008
KANT, I. Sobre a Pedagogia. 2. ed. Piracicaba, SP: Unimep, 1999.
MEIRIEU, P. A Pedagogia entre o dizer e o fazer. Porto Alegre: Artmed, 2002.
RIBOULET, L. Disciplina preventiva. 3. ed. São Paulo: F.T.D., 1963.
ROUANET, S. P. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SACRISTÁN, J. G. O aluno como invenção. Porto Alegre: Artmed, 2005.
SOUZA, M. Fios e furos: a trama da subjetividade e a educação. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, n. 26, p. 119 - 133 ago. 2004.
VASCONCELOS, M. S. Disciplina e indisciplina como representações na educação contemporânea: a ética da obediência. In: BARBOSA, R. L. L. (Org.). Formação de educadores: desafios e perspectivas. São Paulo: UNESP, 2003. p. 465 – 477.

Trova a indisciplina escolar

TROVA A INDISCIPLINA ESCOLAR


RESUMO
O presente trabalho, não é um escárnio, é um orvalho de criatividade quase uma frugalidade. Quando se trata de indisciplina tudo aparece na surdina. Tentativa de tirar o entendimento da neblina. A composição dessa trova é uma maneira nova, de abordar a indisciplina escolar. Ele mostra uma perspectiva inventiva para a indisciplina. O professor, trabalhador, tenta com paixão acabar com a rebelião, recorrendo para a punição, visando do aluno a formação. O presente trabalho esta dividido em duas partes, para ao fim, estarmos sorridentes. A primeira refere-se ao professor, quase um sofredor. A segunda mostra a resposta do indisciplinado quase magoado. Os leitores não encontrarão uma conclusão, isso, deixo para os professores ou pesquisadores. Do indisciplinado se mostra as dores, e esta é só uma das cores desses alunos voadores. Este artigo pode ser um perigo ao professor do aluno inimigo. Aqui se tenta demonstrar que a indisciplina escolar pode seu dia alegrar. A maneira que este artigo foi escrito pode soar esquisito, parecer erudito, talvez até bonito, mas também é um delito.

Palavras chave: Educação, indisciplina, emoção.


TROVA A INDISCIPLINA ESCOLAR

Pela manha sonhava em ser caminhoneira, talvez espanhola
Lá pelas dez da manhã já mudara, de pipoqueira a cantora;
Ao meio dia, com fome, depois de muito brincar na escola
Restava, entretanto a opção desafiadora de ser professora.

Tarde divertida
As vezes estudava
Pouco distraída
Formada me julgava.
Após a janta,
Não mais infanta
Fora dormir sonhadora
Com a mãe por protetora.

Pois
Segundo Tardif 2002
Na pagina 11 escreveu
Que o saber do professor é só seu
Que advêm da sua experiência de vida
e também vem da história da sua lida
Que é influenciado pela identidade
e pela individualidade.

Sonhava em ser uma professora ideal.
Que conhece a matéria em seu total.
Sua disciplina e seu programa sem ser ornamental.
No cotidiano com o aluno desenvolvendo meu saber experiencial.
Isso, Tardif escreveu no ano de 2002
na pagina 39, nem antes nem depois.

Montessori, Freire, Gardner
Kant, Rouseau, Gadamer
Talvez um francês, quem sabe um inglês,
que ajude a deixar meu aluno cortês.
Apagada amargura agora era minha vez,
jovem tez não tinha marca nem ranhura.

O sono mais fundo não deixava entrever
o que acabava por mudar meu entender
Meu Pai carrancudo amava me proteger;
e minha mãe tornava o amar fecundo
Uma sobra no meu ombro desejava compreender
tudo isso antes do amanhecer
Abandono o dormitar, já ha me alegrar
em levantar num segundo ir trabalhar.




Quando na escola a ensinar
Na sala de aula pontificar
Em boa intenção demonstrar
Uma educação a ministrar
Um monstro vem atormentar
Uma gárgula a gritar
Vem esmola solicitar
Um tempo dispensar
Paciência ha esgotar
Indisciplina escolar

No início tudo são flores, do outro aluno tomo as dores
Para não perder mais tempo e diminuir meu tormento
O mando para os corredores falar com os coordenadores
Não passou de um momento e continuo meu fomento.

A escola não é lugar de brincar
Se deve estudar
Com afinco trabalhar
Sem o colega atrapalhar.

Nessas horas utilizo o método tradicional
Que Araújo 1996 de maneira natural
na página 110 escreveu
e propriamente esclareceu
“Que o modo de lidar com a indisciplina é o da repressão
por meio de instrumentos de coação
colocados pela sociedade a disposição
dos sujeitos da educação”.

Hoje em dia os pais são complacentes com erros recorrentes
Não impõe respeito nem cobram mesuras exaltando travessuras
O aluno não satisfeito, sempre mais sorridente brinca alegremente
Se esvai minha atenção e busco uma punição que visa boa formação
O ciclo vai se fechar como o pai ele vai ficar na cadeia vai parar
O que posso falar se ele não quer me escutar
Em seu lugar não consegue ficar
Não há mais o que tentar.


Foi Postman 1999 que escreveu na pagina 165,
algo que me pareceu um brinco e que merece vinco,
“as crianças se tronam como que um fardo”
“entanto pais e mães abrem seu caminho no mundo” sem resguardo
Assim “é melhor que a infância termine o mais cedo possível”
E isso vem ocorrendo de modo visível.

Mesmo autor mesma página,
Alerta de maneira cristalina.
A escola é a única instituição pública que nos resta
baseada no pressuposto que se presta
a demonstrar que há diferenças
entre a idade adulta e das crianças.
Mais a diante escreve a noção
de que a escola é casa de detenção
e não de atenção.

O fruto não cai longe do pé
Com esse absurdo só mesmo a fé
Ah, como me irrita aquele fedido boné
Queria poder lhe dar só um ponta pé
Os dias de hoje arrepiariam até São Tomé
Assim Riboulet entendeu a questão
Com indisciplinado só a religião
O professor de Deus é extensão
Para ir ao banheiro só com permissão.

É de pequenino que se entorta o pepino
Nenhum ensino pode com aquele menino
De escola peregrino, em sua cabeça falta um pino
Quisera meu destino não revolvesse meu intestino.

Ele é tão mesquinho não vê que estou trabalhando
Ele é tão baixinho e vive me atrapalhando
Fala sussurrando no mundo da lua vagando
Me vou amargurando com a voz falhando.




Estrela 1994 na pagina 67 escreveu algo interessante
Que o professor só interfere quando o barulho é exorbitante
Quando a voz do aluno é maior que a do professor
Assim ele se adapta ao meio exterior
O que não pode ser generalizado
Mas é importante e não é engraçado.

Para seu discernimento apelo emocionada
Sem entender direito ele fica de cabeça abaixada
Imagino que ele vai ceder, dessa vez é pra valer
Sem eu perceber, ele volta a se mexer.

Não adianta tentar, ele fala sem parar
Não vou me admoestar, atenção não vou lhe dar
A muito custo aprendi essa dica
Em uma palestra do Icami Tiba.

Como ele pode imaginar que estudar seja “Ctrl C Ctrl V”
Não consigo entender porque ele não quer se desenvolver
Ele não para de falar, seja sobre internet, televisão, ou HQ
Quando ele finalmente perceber será tarde para aprender.

Li em Postman 2009 algo que natural me pareceu
Foi na pagina 62 que escreveu
Que “a vergonha é um elemento essencial no processo civilizatório”
Por isso avilto meu aluno com esse palavrório.

Alunos e alunas!
Vamos todos de mãos juntas
Rezar a Deus nosso senhor
Com todo nosso fervor
Que o Nestor não traga mais seu tambor
Que o José pare de bater o pé
Que o João não jogue de papel o avião
Para que cesse dessa turma a decadência
Só se o Ivan pedir transferência.




Quando no meio do chuleio
Bato o pé em devaneio
O indisciplinado não tem freio
E muito pouco asseio
Busco uma solução com anseio.

Até tentei o contrato pedagógico
Em Aquino 2003 me pareceu muito lógico
Na pagina 69 um ditado escreveu
Foi quando me esclareceu
“O combinado não sai caro”
No primeiro dia de aula foi o meu amparo
“Trata-se de uma espécie de pacto de confiança”
Tentei seguir em frente sem desconfiança
Mas infelizmente a indisciplina sempre avança
Parece que o aluno nunca vai deixar de ser criança.

A criança brinca seu mundo a criar
A professor a se matar
Tenta pedagogicamente ensinar
Sem seu aluno poder alcançar.

O aluno durante a aula no mundo da lua
Na hora da prova tenta alguma falcatrua
Não é questão de mesquinhez
Mas um zero vai levar dessa vez
O que que eu posso fazer se é para ele aprender
Ele precisa crescer um pouco amadurecer
É para seu próprio bem tento me convencer
Mas não posso deixar ele reprovar
Ano que vem ele volta a me aporrinhar
Mas ele já reprovou dois anos consecutivos
Esse aluno não procurou seus objetivos
Acho que vai virar cobrador de coletivos.

Nele não acho nenhum ponto positivo
Os colegas nele perecem ver um atrativo
Para todos os professores ele é repulsivo
Para fazer bagunça é bem inventivo.

Porém Gross em seu mestrado
Identificou um desamparo
Dos 21 professores entrevistados
Da quinta série peneirados
Durante sua formação nada leram
Sobre indisciplina nada aprenderam
A disciplinação por eles empregada
De sua vida vem sendo aproveitada.

Estrela no ano de 1994, na página 85
Nos avisa com afinco
Que o aluno indisciplinado
Aquele desavergonhado
Atinge o professor em sua autoridade primeiro
Para depois atingir sua pessoa sem passeio.

Ao fim do dia, sem energia
Ser professora já não queria
Alegria não mais possuía
Mais um dia não agüentaria.

Foi quando encontrei
No fundo da bolsa identifiquei
A carta que a seguir transcreverei.


A MINHA PROFESSORINHA COM CARINHO

Professorinha Queridinha
Aceite esse versinho com carinho
Do meu direito tenho conhecimento
Mesmo sem escrever direito.

Sei que sou impertinente
E que minha letra é diferente
Estou sempre sorridente
E as suas solicitações sou indiferente
O seu dedo sempre em riste
Me deixa muito triste
Ai tento fazer um chiste.
Mas quando vejo seu olho esbugalhado
Fico todo abobalhado
E depois que você fala, fico todo enxovalhado
Volto para caso todo apavorado
Tento não dar pinta
Meu pai já vai tirando a cinta
Tento argumentar
Mas ele não quer conversar
Minha mãe tenta acalmar
E vou dormir sem jantar.

No dia seguinte na escola
A conversa começa sem demora
Em dia de prova o que rola é a cola
A professora chega com sua maleta assim que toca a sineta
A lua pra mim não é planeta
É um lugar onde vou passear
E escapar de uma bronca levar
Mas não adianta me esconder nem me encolher
A senhora sempre vai me escolher
Sua pergunta vou sempre temer
Mas sua matéria não consigo entender
Eu vejo que a senhora quer me esclarecer
MAS NUNCA VOU ME RENDER!!!
EU QUERO APRENDER!!!
Mas ai quando o Nestor toca seu tambor
Saio do estupor não tenho mais temor
O José começa a bater o pé
E o André sempre vem de boné
É claro que eu vou reclamar né?
Mas a senhora só escuta quando eu reclamo
E acha que sou sempre eu que tramo
Eu sei, parece que tenho um plano
Mas a culpa é do meu mano.

Eu juro que sou inocente!
Não sou indecente nem indigente!
Quero ser tratado como gente!
Qual o problema em estar contente?

Eu acho que a sala de aula mais parece uma jaula
Queria correr lá fora, agora o recreio não demora
Vamos todos jogar bola até sair do tênis a sola
Jogar conversa fora e tomar coca-cola
Mas ai vem a prova
Como sou inteligente passo cola e cavo minha cova
Vá para fora, conversar com o orientador AGORA!
Minha mãe agora me devora.

Não sei se a senhora me entendeu
Mas o culpado novamente não sou eu
Mas o orientador não se comoveu
Também não percebeu que um premio ele me deu
Ficar em casa vendo TV e lendo HQ.

Infelizmente meu pai não ficou contente
E falou meio de repente
Você quer ficar parecido com a gente?
Você é inteligente aja de maneira coerente!
Ninguém da nossa família foi pra faculdade!
Respeite a professora em sua autoridade!
Qual a dificuldade?
Vai ser engenheiro construir uma cidade!
Mas esse seu comportamento é uma calamidade!
Não percebe que estou sóbrio?
Essa conversa me da um imbróglio!
A prisão não tem dormitório!
Com os gritos na vizinhança já começa o falatório.

Minha mãe envergonhada vai trabalhar apressada
A patroa ainda deve estar ressonada depois de dar aula
Ela é uma mestre renomada
Em pedagogia formada, com três filhos, e separada
A mãe pede conselhos pra ela enquanto lava a janela
E ela diz que aluno que se rebela é porque o professor da trela.

A escola devia ser um abrigo não um castigo
Lá não tenho nenhum amigo
Não quero ser mendigo, mas me concentrar não consigo
Todo mundo briga comigo, não escapo nem no domingo.
Tento ser engraçado mesmo sendo espancado
Como gato escaldado, tento ser de seu agrado.

Não devo ter jeito, como indisciplinado fui eleito
Devo ter algum defeito, sou meio imperfeito
Da escola tento tirar proveito, e estudo do meu jeito.

São poucas as horas que posso me soltar
Brincar, brincar, brincar...
As vezes no meu lugar jogo um avião para voar
Voar, voar, voar...

Professora não briga mais comigo
Eu quero ser seu amigo, mas não consigo
Eu preciso de abrigo, é isso que eu digo.

Mas ninguém me escuta
Sempre reclamam da minha conduta
Parece sempre ter uma disputa
Entre eu e a senhora.
Não sei se você chora
Quando me põe pra fora, parece até que tem espora.

Eu sei que eu choro. É por dentro, não é sonoro
Queima como fósforo. Por favor, eu imploro
Eu sou criança ainda não tenho pança
Na senhora não tenho confiança
Meu comportamento não precisa de mudança
Seu conhecimento é que não avança
Para sair da escola o diploma é fiança.

Parece que a senhora nunca foi criança
Se esqueceu que brincava? Agora da Pedagogia é escrava!
Não se lembra que reclamava? De sua professora e sua clava!

Se esqueceu que se divertia? Chamava sua professora de tia!
E de mim tenta tirar essa mania? Tudo isso é uma porcaria!



Se esqueceu que já foi criança?
Disso não sobrou nenhuma herança?
Se esconde atrás dessa segurança?
Na senhora também não vejo nenhuma mudança!

A senhora gosta de ter poder.
Não quer nem saber!
Não me deixa esclarecer.
Só quer saber de reger!

Uma pop-star pedagógica.
Para a senhora tudo é lógica
Gosta mesmo é de uma retórica.
Mas fala por metáfora.
Não entendo a senhora.
Que acabe a aula não vejo a hora.

A senhora não sabe do que preciso.
Me chama de indeciso
Me deixando de sobreaviso.
E tenta conter o meu riso
Como se isso fosse contagioso.
Me acha monstruoso
Me chama de ruidoso.
Diz que meu futuro não vai ser frondoso
Mesmo quando tento ser bondoso.

Quando tento dizer que ganhei um cachorrinho.
A senhora acha que eu sou um tolinho.
E nunca mais devolveu meu carrinho.
Nunca recebo um carinho.

Me acham um mimado. Mas brincar não sou autorizado
Vivo aterrorizado. Por não ter o alfabeto decorado
Meu jeans já esta até desbotado. De viver sentado
No livro enfurnado. Tentar me manter informado
Para que meus pais me vejam formado



Mas qual o modelo de adulto que eu tenho?
Sempre medindo meu desempenho!
Não percebem que me empenho?
Olha que bonito meu desenho!

Mas a raiz quadrada de 9 é 3. A formula de Báskara parece javanês
A senhora acha que eu falo maluques,
e todo mundo acha que eu sou burguês.
Vivo numa quitinete com acesso a internet, 5+2=7.
Minha orelha não precisa de cotonet.
Para ouvir sua lamúria por viver na penúria

Quando o aluno novo encara
De cara vê a cara do cara
Não lê, nem estuda... ó o cara!
Mas sabe a raiz de 36 de cara
A professora nem olha na cara
A professora minha cara
Diz que o santo é só mascara

Não sei se a senhora percebeu
Não sobrou ninguém
Só aquele que já aprendeu
Para o indisciplinado nem um vintém.

REFERÊNCIAS

AQUINO, J. G. Indisciplina. São Paulo: Moderna, 2003.
ARAÚJO, U.F. Moralidade e Indisciplina. In: AQUINO, J. G. (Org.). Indisciplina na escola. 13. ed. São Paulo: Summus, 1996. p. 103 - 115.
ESTRELA, M. T. Relação pedagógica disciplina e indisciplina na aula. 2. ed. Porto: Porto, 1994.
GROSS, I. Discurso pedagógico sobre indisciplina escolar. 2009. 112 f. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2009.
POSTMAN, N. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999
RIBOULET, L. Disciplina preventiva. 3. ed. São Paulo: F.T.D., 1963.
TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Teoria X Prática...

O que é indisciplina na prática?

Eu estive pensando, a quase totalidade dos pesquisadores que se debruçam sobre o tema da indisciplina escolar vem no professor um agente relevante no processo de desenvolvimento da indisciplina escolar.
Porém, há uma distância. O professor pode concordar com o que quer que seja; que a responsabilidade é dele, dos pais, da sociedade, da internet, da própria criança, como sendo o ponto nodal de aprendizagem da indisciplina (já que nenhuma criança nasce indisciplinada). Porém há algo na sala de aula que é justamente o que incomoda o professor; a existência da indisciplina não importa da onde ela venha ou tenha sua origem.
Ai é que surge minha pergunta, o que é a indisciplina na prática diária em sala de aula, qual o limite, isso se há um limite máximo e um mínimo?

Por exemplo, em um outro blog (de uma professora) ela despreza o mascar chiclete em sala de aula, chama os alunos de ruminantes e etc... não vem ao caso se concordo ou não com isso, o que importa aqui é que ela considera isso como sendo indisciplina.
Outro exemplo é retirado de um livro (bem interessante por sinal, falaremos mais sobre ele em outras postagens) chamado: Como se tornar o pior aluno da escola. Nesse livro o autor ensina diversas maneiras de fazer “bagunça” em sala de aula (bagunça é como ele chama); um dos exemplos é causar um curto circuito na rede elétrica da escola; outro exemplo é equilibrar um copo de plástico encima da porta cheio de “água”, para que quando alguém, no caso o professor, entre seja molhado.
Posso dar um outro exemplo meu. Uma vez levei para a sala de aula uma fita de vídeo k7; desenrolei a fita pela sala toda, que ficou imunda.

Qual a diferença entre o que tem sido encontrado em pesquisas e o que é sentido pelos professores no dia a dia em sala de aula. Não falo de métodos para disciplinar os alunos, questiono sobre o sentimento que o professor tem em sala de aula. Como ele aprende a suportar certas coisas e outras não? Ele não nasceu sabendo o que é indisciplina escolar. De onde vem esse valor?

Encontrar essa resposta ajudará a saber porque os professores nunca estão errados.

domingo, 23 de maio de 2010

Texto sobre bully (Se você quiser receber esse texto em seu e-mail escreva para ivangross@yahoo.com.br)

Bully e suas dimensões.

Ivan Gross
ivangross@yahoo.com.br


Resumo:
Este texto pretende introduzir a idéia de bully. Apresentar as idéias teóricas ligadas a sua definição. Consideramos quais fatores levam a criança a praticar o bullying sua dimensão familiar, social e pessoal; introduzimos a importância do modelo do professor para seu aluno. Também iniciamos a apresentação de um programa que pode ser desenvolvido na escola para minimizar as ocorrências de bullying.
Palavras chave: Educação, bully, dimensões do bullying.


Introdução
Pode-se considerar que o início da pesquisa sobre o bully se dá em 1979, quando Dan Olweus iniciou o estudo sistemático do fenômeno. Desde então a pesquisa sobre bullying começou a se ramificar por diversos países e áreas do conhecimento como, por exemplo: Psicologia, Pedagogia, Educação, Sociologia entre outros. O bullying a cada dia ganha uma visibilidade maior; veja o seguinte exemplo: somente ontem (19/5/2010) saíram 39 reportagens na internet sobre bully, na mídia impressa de circulação nacional, na última semana (9-15/05/2010), foram duas reportagens sobre o fenômeno.
As consequências para a criança que pratica o bully também tomam uma nova direção, conversa com os pais, suspensões, psicoterapia começam a dar espaço para ações judiciais, como o caso em Minas Gerais onde os pais do aluno terão que pagar 8 mil reais de indenização a vítima do bullying . Percebe-se então, a dimensão que tal fenômeno vem obtendo.

Bullying
A partir desses dados podemos retirar algumas conclusões; primeiro: a importância de se estudar e compreender o bully; segundo, que é consequência da primeira, quanto mais se estuda o fenômeno, mais identificável ele será. A terceira é conseqüência da anterior, quanto mais identificável é o fenômeno maior será sua exposição na mídia. Assim, o quadro que se apresenta nos dias de hoje é a escalada de casos de bully, um acontecimento muito falado, um fenômeno muito estudado, mas uma situação pouco compreendida.
Jim Wright escreve que bullying é “uma situação em que um ou mais alunos (os bullies) intimidam um aluno se engajando em comportamentos destinados a prejudicá-lo. A intimidação, com freqüência se direciona a uma mesma vitima, é repetida ao longo do tempo. A criança que pratica bully domina sua vitima por possuir mais poder. Comparado a sua vitima, por exemplo, o tirano pode ser fisicamente mais forte, ou inteligente, ter um maior circulo de amigos, possuir uma situação social melhor. O bully pode causar danos físicos, emocionais ou constrangimentos, ou humilhação social”. (WRIGHT, 2004, p. 3)
Outros autores recorrem a própria palavra para explicar o fenômeno; assim pode-se encontrar que bully advém da palavra “inglesa que adotada em muitos países define ‘o desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la sobtensão’” (TATUM e HERBERT, 1999 apud FANTE; PEDRA, 2008, p. 33).
Bullying também pode ser considerado como: “todas as atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro ou outros, causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder, tornando possível a intimidação da vítima” (LOPES NETO E SAAVEDRA, 2003 apud FANTE; PEDRA, 2008).
Outras definições mais detalhadas afirmam que os atos de bullying “compreendem; Físico: bater, chutar, beliscar. Verbal: apelidar, xingar, zoar. Moral: difamar, caluniar, discriminar. Sexual: abusar, assediar, insinuar. Psicológico: intimidar, ameaçar, perseguir. Material: furtar, roubar, destroçar pertences. E Virtual: zoar, discriminar, difamar por meio de Internet e celular. Percebe-se que a vítima recebe ataques conjugados, utilizando-se para isso várias formas de maus-tratos, inclusive a exclusão social”(GONSALVES, GONSALVES, LIMA, 2009, p. 3)
O termo bully pode ser traduzido como valentão, tirano, brigão. Em inglês, o verbo bully: significa tiranizar, amedrontar, brutalizar, oprimir, já o substantivo bullying: significa o conjunto de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully) ou grupo de indivíduos objetivando intimidar ou agredir outro indivíduo ou grupo de indivíduos incapaz de se defender (FANTE; PEDRA, 2008).
Vamos separar algumas coisas na construção do conceito do que é bully: sempre há um agressor (ou grupo de agressores) e um agredido; a agressão é intencional e recorrente em outros termos consciente e repetitiva. Quanto a forma concreta como age o bully, Jim Wright considera existirem duas: uma forma direta que ocorre quando agressor e vítima estão frente a frente, e uma forma indireta que acontece quando o bullying acontece quando a vitima não esta por perto.
A partir dessas considerações podemos construir o seguinte panorama, o bully ocorre quando um (ou grupo) valentão, brigão ou tirano, abusa intencionalmente de forma física – verbal – moral – sexual – virtual – material – ou – psicologicamente (conjugados ou não), de maneira contínua, por certo período de tempo, direta ou indiretamente, uma (ou grupo) vítima, incapaz de se defender, causando exclusão (humilhação) social – stress – medo – baixa auto-estima – perdas materiais – angustia – danos físicos – ou – constrangimentos entre outros (conjugadas ou não).
Podemos apresentar a mesma idéia de modo mais simples: o bullying ocorre quando um(s) individuo(s) acredita(m) ser(em) melhor que outro(s), e se utiliza(m) dessa crença para humilhar sua(s) vítima(s) de alguma maneira, de maneira contínua.
Porém, algumas perguntas ainda permanecem, o porquê o agressor age desta maneira e, em caso de bullying na escola, o que o professor pode fazer.
Masarie (s.d.) apresenta uma razão pelo comportamento de bullying por parte das crianças, ela afirma que: “uma coisa que sabemos é que os autores são ensinados ao bully. Eles (as crianças) não nascem dessa forma. Pode ser seu temperamento subjacente, combinado com influências a partir de casa, escola, comunidade e meios de comunicação que permitem o comportamento provocador florescer”.
Essa razão é desconcertante, pois afirma que o comportamento de bullyng é aprendido; e não delimita sua origem na família, na sociedade, na cultura, ou na internet, vídeo-games e t.v., aquela autora inclui a escola na equação.
Se considerarmos o bully como um comportamento aprendido, a influência da escola nos casos de bully pode ter duas fontes. Uma no comportamento do professor. Outra, na ausência de comprometimento e atenção para com as crianças, tanto a agressora quanto a agredida, em outros termos na anuência com o bullying.
Outros agentes que “ensinam” as crianças ao comportamento de bullying advém de situações cotidianas que a criança aceita como normais. Entre elas Masarie chama a atenção para: xingamentos, vinganças, comunidade violenta, transferência de problemas domésticos, habilidades sociais deficientes, raiva descontrolada, “a melhor defesa é o ataque”, poder, reconhecimento, não ser legal, elevada auto-estima, baixa auto-estima, competições, não encaixamento social, modelo parental pobre, código de comportamento, honra, humor, entretenimento, ou pressão do grupo.
Podemos identificar ao menos três dimensões nessas situações cotidianas, a familiar, a pessoal e a social.
Quanto a dimensão familiar, transferência de problemas domésticos, modelo parental pobre; sendo a criança mais fraca na relação familiar ela re-direciona os comportamentos aprendidos a outras crianças mais fracas. Assim, nesse modelo a criança acredita estar certa nos comportamentos agressivos, pois os vê sendo praticados todos os dias em diversas situações.
Quanto a dimensão pessoal, auto-estima elevada ou baixa, raiva descontrolada; nesses fatores a criança se utiliza de comportamentos aprendidos para se defender ou atacar (para se defender) de outras crianças que potencialmente também podem identificar suas características diferentes; a lógica psicológica por traz desse raciocínio é apontar a diferença do outro para não enxergarem a sua. Quanto a raiva descontrolada ela ocorreria na esteira do re-direcionamento de abusos sofridos.
Quanto a dimensão social; xingamentos, vinganças, comunidade violenta, habilidades sociais deficientes, “a melhor defesa é o ataque”, poder, reconhecimento, não ser legal, competições, não encaixamento social, código de comportamento, honra, humor, entretenimento, ou pressão do grupo; todos esses fatores possuem o mesmo funcionamento, o de modelar o comportamento da criança que acredita estar agindo de acordo com as regras sociais.
Alguns não aceitarão a inclusão de algum fator em uma determinada dimensão, até mesmo essas três dimensões podem ser questionadas, elas são simplesmente elucidativas; porém existem três constantes nesses fatores: a criança acredita estar agindo corretamente, quem não a entende são os outros, os agredidos e alguns adultos; a segunda é que esse comportamento é intencional; e por último, em todos esses fatores o comportamento de bully foi aprendido, mesmo na dimensão pessoal.
Sendo a escola a instituição onde seus profissionais estão qualificados a ensinar, o que eles podem fazer sobre as ocorrências de bully?
A seguir apresentamos uma proposta de estratégia para se trabalhar o tema na escola, algumas delas são retiradas de Wright (2004). Elas estão apresentas sequencialmente, mas sua ordem não precisa ser necessariamente observada.
Primeiro: realizar um evento interno que esclareça aos alunos o que é bully, assédio moral, agressividade entre outros comportamentos abusivos; também se deve ressaltar os valores importantes ao convívio social, respeito, gentileza e educação entre outros; fazer a criança compreender a idéia de empatia.
Segundo: realizar um evento externo com pais e comunidade esclarecendo sobre os mesmos pontos, também se deve ressaltar a importância do modelo familiar e como o exemplo dos pais é seguido pelos filhos.
Terceiro: realizar um levantamento anônimo com os alunos, na intenção de saber quantos estão sendo vítima de bullying, e quais as formas como ele se apresenta.
Quarto: desenvolver um procedimento em conjunto com os alunos que propicie a denuncia de alunos que praticam bully. Esse procedimento não deve, na medida do possível, ser anônimo; obviamente se deve ter em mente que represálias podem acontecer, porém o fato de se conhecer o agressor e a vítima favorece a conversa franca, também facilita a observação de seus comportamentos.
Quinto: desenvolver um projeto contínuo e em longo prazo, com ações direcionadas aos eventos relatados nas denuncias. Dessa maneira pequenos atos podem ser identificados e sua reincidência minimizada.
Sexto: estabelecer uma política de contínua aproximação com os pais.
Sétimo: monitorar os resultados.

Conclusão
Após essas considerações, podemos perceber que o bully ainda é um fenômeno estranho e pouco conhecido nas escolas. Da mesma forma que as conseqüências se apresentam a todos os envolvidos; todos devem buscar a solução em conjunto. Quem agride deve aprender a uma nova classe de comportamentos; quem é agredido deve aprender que o problema não é consigo, a família deve aprender como educar, a escola deve facilitar tais aprendizagens.

Referências

FANTE, C.; PEDRA, J. A. Bullying escolar: perguntas e respostas. Porto Alegre: ArtMed, 2008.
GONSALVES, S. R.; GONSALVES, M. V.; LIMA, J. F. A linguagem do bullying: a violência refletindo na fala e escrita dos adolescentes. Disponível em: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/3178_1526.pdf , acesso em 10/05/2010.
MASARIE, K. Some Reasons kids bully? Disponível em: http://www.stopbullyingnow.com/Some%20reasons%20why%20%20kids%20bully.pdf acesso em 5/05/2010.
WRIGHT, J. Preventing classroom bullying: what teachers can do. Disponível em: http://www.jimwrightonline.com/pdfdocs/bully/bullyBooklet.pdf acesso em 5/05/2010.