TROVA A INDISCIPLINA ESCOLAR
RESUMO
O presente trabalho, não é um escárnio, é um orvalho de criatividade quase uma frugalidade. Quando se trata de indisciplina tudo aparece na surdina. Tentativa de tirar o entendimento da neblina. A composição dessa trova é uma maneira nova, de abordar a indisciplina escolar. Ele mostra uma perspectiva inventiva para a indisciplina. O professor, trabalhador, tenta com paixão acabar com a rebelião, recorrendo para a punição, visando do aluno a formação. O presente trabalho esta dividido em duas partes, para ao fim, estarmos sorridentes. A primeira refere-se ao professor, quase um sofredor. A segunda mostra a resposta do indisciplinado quase magoado. Os leitores não encontrarão uma conclusão, isso, deixo para os professores ou pesquisadores. Do indisciplinado se mostra as dores, e esta é só uma das cores desses alunos voadores. Este artigo pode ser um perigo ao professor do aluno inimigo. Aqui se tenta demonstrar que a indisciplina escolar pode seu dia alegrar. A maneira que este artigo foi escrito pode soar esquisito, parecer erudito, talvez até bonito, mas também é um delito.
Palavras chave: Educação, indisciplina, emoção.
TROVA A INDISCIPLINA ESCOLAR
Pela manha sonhava em ser caminhoneira, talvez espanhola
Lá pelas dez da manhã já mudara, de pipoqueira a cantora;
Ao meio dia, com fome, depois de muito brincar na escola
Restava, entretanto a opção desafiadora de ser professora.
Tarde divertida
As vezes estudava
Pouco distraída
Formada me julgava.
Após a janta,
Não mais infanta
Fora dormir sonhadora
Com a mãe por protetora.
Pois
Segundo Tardif 2002
Na pagina 11 escreveu
Que o saber do professor é só seu
Que advêm da sua experiência de vida
e também vem da história da sua lida
Que é influenciado pela identidade
e pela individualidade.
Sonhava em ser uma professora ideal.
Que conhece a matéria em seu total.
Sua disciplina e seu programa sem ser ornamental.
No cotidiano com o aluno desenvolvendo meu saber experiencial.
Isso, Tardif escreveu no ano de 2002
na pagina 39, nem antes nem depois.
Montessori, Freire, Gardner
Kant, Rouseau, Gadamer
Talvez um francês, quem sabe um inglês,
que ajude a deixar meu aluno cortês.
Apagada amargura agora era minha vez,
jovem tez não tinha marca nem ranhura.
O sono mais fundo não deixava entrever
o que acabava por mudar meu entender
Meu Pai carrancudo amava me proteger;
e minha mãe tornava o amar fecundo
Uma sobra no meu ombro desejava compreender
tudo isso antes do amanhecer
Abandono o dormitar, já ha me alegrar
em levantar num segundo ir trabalhar.
Quando na escola a ensinar
Na sala de aula pontificar
Em boa intenção demonstrar
Uma educação a ministrar
Um monstro vem atormentar
Uma gárgula a gritar
Vem esmola solicitar
Um tempo dispensar
Paciência ha esgotar
Indisciplina escolar
No início tudo são flores, do outro aluno tomo as dores
Para não perder mais tempo e diminuir meu tormento
O mando para os corredores falar com os coordenadores
Não passou de um momento e continuo meu fomento.
A escola não é lugar de brincar
Se deve estudar
Com afinco trabalhar
Sem o colega atrapalhar.
Nessas horas utilizo o método tradicional
Que Araújo 1996 de maneira natural
na página 110 escreveu
e propriamente esclareceu
“Que o modo de lidar com a indisciplina é o da repressão
por meio de instrumentos de coação
colocados pela sociedade a disposição
dos sujeitos da educação”.
Hoje em dia os pais são complacentes com erros recorrentes
Não impõe respeito nem cobram mesuras exaltando travessuras
O aluno não satisfeito, sempre mais sorridente brinca alegremente
Se esvai minha atenção e busco uma punição que visa boa formação
O ciclo vai se fechar como o pai ele vai ficar na cadeia vai parar
O que posso falar se ele não quer me escutar
Em seu lugar não consegue ficar
Não há mais o que tentar.
Foi Postman 1999 que escreveu na pagina 165,
algo que me pareceu um brinco e que merece vinco,
“as crianças se tronam como que um fardo”
“entanto pais e mães abrem seu caminho no mundo” sem resguardo
Assim “é melhor que a infância termine o mais cedo possível”
E isso vem ocorrendo de modo visível.
Mesmo autor mesma página,
Alerta de maneira cristalina.
A escola é a única instituição pública que nos resta
baseada no pressuposto que se presta
a demonstrar que há diferenças
entre a idade adulta e das crianças.
Mais a diante escreve a noção
de que a escola é casa de detenção
e não de atenção.
O fruto não cai longe do pé
Com esse absurdo só mesmo a fé
Ah, como me irrita aquele fedido boné
Queria poder lhe dar só um ponta pé
Os dias de hoje arrepiariam até São Tomé
Assim Riboulet entendeu a questão
Com indisciplinado só a religião
O professor de Deus é extensão
Para ir ao banheiro só com permissão.
É de pequenino que se entorta o pepino
Nenhum ensino pode com aquele menino
De escola peregrino, em sua cabeça falta um pino
Quisera meu destino não revolvesse meu intestino.
Ele é tão mesquinho não vê que estou trabalhando
Ele é tão baixinho e vive me atrapalhando
Fala sussurrando no mundo da lua vagando
Me vou amargurando com a voz falhando.
Estrela 1994 na pagina 67 escreveu algo interessante
Que o professor só interfere quando o barulho é exorbitante
Quando a voz do aluno é maior que a do professor
Assim ele se adapta ao meio exterior
O que não pode ser generalizado
Mas é importante e não é engraçado.
Para seu discernimento apelo emocionada
Sem entender direito ele fica de cabeça abaixada
Imagino que ele vai ceder, dessa vez é pra valer
Sem eu perceber, ele volta a se mexer.
Não adianta tentar, ele fala sem parar
Não vou me admoestar, atenção não vou lhe dar
A muito custo aprendi essa dica
Em uma palestra do Icami Tiba.
Como ele pode imaginar que estudar seja “Ctrl C Ctrl V”
Não consigo entender porque ele não quer se desenvolver
Ele não para de falar, seja sobre internet, televisão, ou HQ
Quando ele finalmente perceber será tarde para aprender.
Li em Postman 2009 algo que natural me pareceu
Foi na pagina 62 que escreveu
Que “a vergonha é um elemento essencial no processo civilizatório”
Por isso avilto meu aluno com esse palavrório.
Alunos e alunas!
Vamos todos de mãos juntas
Rezar a Deus nosso senhor
Com todo nosso fervor
Que o Nestor não traga mais seu tambor
Que o José pare de bater o pé
Que o João não jogue de papel o avião
Para que cesse dessa turma a decadência
Só se o Ivan pedir transferência.
Quando no meio do chuleio
Bato o pé em devaneio
O indisciplinado não tem freio
E muito pouco asseio
Busco uma solução com anseio.
Até tentei o contrato pedagógico
Em Aquino 2003 me pareceu muito lógico
Na pagina 69 um ditado escreveu
Foi quando me esclareceu
“O combinado não sai caro”
No primeiro dia de aula foi o meu amparo
“Trata-se de uma espécie de pacto de confiança”
Tentei seguir em frente sem desconfiança
Mas infelizmente a indisciplina sempre avança
Parece que o aluno nunca vai deixar de ser criança.
A criança brinca seu mundo a criar
A professor a se matar
Tenta pedagogicamente ensinar
Sem seu aluno poder alcançar.
O aluno durante a aula no mundo da lua
Na hora da prova tenta alguma falcatrua
Não é questão de mesquinhez
Mas um zero vai levar dessa vez
O que que eu posso fazer se é para ele aprender
Ele precisa crescer um pouco amadurecer
É para seu próprio bem tento me convencer
Mas não posso deixar ele reprovar
Ano que vem ele volta a me aporrinhar
Mas ele já reprovou dois anos consecutivos
Esse aluno não procurou seus objetivos
Acho que vai virar cobrador de coletivos.
Nele não acho nenhum ponto positivo
Os colegas nele perecem ver um atrativo
Para todos os professores ele é repulsivo
Para fazer bagunça é bem inventivo.
Porém Gross em seu mestrado
Identificou um desamparo
Dos 21 professores entrevistados
Da quinta série peneirados
Durante sua formação nada leram
Sobre indisciplina nada aprenderam
A disciplinação por eles empregada
De sua vida vem sendo aproveitada.
Estrela no ano de 1994, na página 85
Nos avisa com afinco
Que o aluno indisciplinado
Aquele desavergonhado
Atinge o professor em sua autoridade primeiro
Para depois atingir sua pessoa sem passeio.
Ao fim do dia, sem energia
Ser professora já não queria
Alegria não mais possuía
Mais um dia não agüentaria.
Foi quando encontrei
No fundo da bolsa identifiquei
A carta que a seguir transcreverei.
A MINHA PROFESSORINHA COM CARINHO
Professorinha Queridinha
Aceite esse versinho com carinho
Do meu direito tenho conhecimento
Mesmo sem escrever direito.
Sei que sou impertinente
E que minha letra é diferente
Estou sempre sorridente
E as suas solicitações sou indiferente
O seu dedo sempre em riste
Me deixa muito triste
Ai tento fazer um chiste.
Mas quando vejo seu olho esbugalhado
Fico todo abobalhado
E depois que você fala, fico todo enxovalhado
Volto para caso todo apavorado
Tento não dar pinta
Meu pai já vai tirando a cinta
Tento argumentar
Mas ele não quer conversar
Minha mãe tenta acalmar
E vou dormir sem jantar.
No dia seguinte na escola
A conversa começa sem demora
Em dia de prova o que rola é a cola
A professora chega com sua maleta assim que toca a sineta
A lua pra mim não é planeta
É um lugar onde vou passear
E escapar de uma bronca levar
Mas não adianta me esconder nem me encolher
A senhora sempre vai me escolher
Sua pergunta vou sempre temer
Mas sua matéria não consigo entender
Eu vejo que a senhora quer me esclarecer
MAS NUNCA VOU ME RENDER!!!
EU QUERO APRENDER!!!
Mas ai quando o Nestor toca seu tambor
Saio do estupor não tenho mais temor
O José começa a bater o pé
E o André sempre vem de boné
É claro que eu vou reclamar né?
Mas a senhora só escuta quando eu reclamo
E acha que sou sempre eu que tramo
Eu sei, parece que tenho um plano
Mas a culpa é do meu mano.
Eu juro que sou inocente!
Não sou indecente nem indigente!
Quero ser tratado como gente!
Qual o problema em estar contente?
Eu acho que a sala de aula mais parece uma jaula
Queria correr lá fora, agora o recreio não demora
Vamos todos jogar bola até sair do tênis a sola
Jogar conversa fora e tomar coca-cola
Mas ai vem a prova
Como sou inteligente passo cola e cavo minha cova
Vá para fora, conversar com o orientador AGORA!
Minha mãe agora me devora.
Não sei se a senhora me entendeu
Mas o culpado novamente não sou eu
Mas o orientador não se comoveu
Também não percebeu que um premio ele me deu
Ficar em casa vendo TV e lendo HQ.
Infelizmente meu pai não ficou contente
E falou meio de repente
Você quer ficar parecido com a gente?
Você é inteligente aja de maneira coerente!
Ninguém da nossa família foi pra faculdade!
Respeite a professora em sua autoridade!
Qual a dificuldade?
Vai ser engenheiro construir uma cidade!
Mas esse seu comportamento é uma calamidade!
Não percebe que estou sóbrio?
Essa conversa me da um imbróglio!
A prisão não tem dormitório!
Com os gritos na vizinhança já começa o falatório.
Minha mãe envergonhada vai trabalhar apressada
A patroa ainda deve estar ressonada depois de dar aula
Ela é uma mestre renomada
Em pedagogia formada, com três filhos, e separada
A mãe pede conselhos pra ela enquanto lava a janela
E ela diz que aluno que se rebela é porque o professor da trela.
A escola devia ser um abrigo não um castigo
Lá não tenho nenhum amigo
Não quero ser mendigo, mas me concentrar não consigo
Todo mundo briga comigo, não escapo nem no domingo.
Tento ser engraçado mesmo sendo espancado
Como gato escaldado, tento ser de seu agrado.
Não devo ter jeito, como indisciplinado fui eleito
Devo ter algum defeito, sou meio imperfeito
Da escola tento tirar proveito, e estudo do meu jeito.
São poucas as horas que posso me soltar
Brincar, brincar, brincar...
As vezes no meu lugar jogo um avião para voar
Voar, voar, voar...
Professora não briga mais comigo
Eu quero ser seu amigo, mas não consigo
Eu preciso de abrigo, é isso que eu digo.
Mas ninguém me escuta
Sempre reclamam da minha conduta
Parece sempre ter uma disputa
Entre eu e a senhora.
Não sei se você chora
Quando me põe pra fora, parece até que tem espora.
Eu sei que eu choro. É por dentro, não é sonoro
Queima como fósforo. Por favor, eu imploro
Eu sou criança ainda não tenho pança
Na senhora não tenho confiança
Meu comportamento não precisa de mudança
Seu conhecimento é que não avança
Para sair da escola o diploma é fiança.
Parece que a senhora nunca foi criança
Se esqueceu que brincava? Agora da Pedagogia é escrava!
Não se lembra que reclamava? De sua professora e sua clava!
Se esqueceu que se divertia? Chamava sua professora de tia!
E de mim tenta tirar essa mania? Tudo isso é uma porcaria!
Se esqueceu que já foi criança?
Disso não sobrou nenhuma herança?
Se esconde atrás dessa segurança?
Na senhora também não vejo nenhuma mudança!
A senhora gosta de ter poder.
Não quer nem saber!
Não me deixa esclarecer.
Só quer saber de reger!
Uma pop-star pedagógica.
Para a senhora tudo é lógica
Gosta mesmo é de uma retórica.
Mas fala por metáfora.
Não entendo a senhora.
Que acabe a aula não vejo a hora.
A senhora não sabe do que preciso.
Me chama de indeciso
Me deixando de sobreaviso.
E tenta conter o meu riso
Como se isso fosse contagioso.
Me acha monstruoso
Me chama de ruidoso.
Diz que meu futuro não vai ser frondoso
Mesmo quando tento ser bondoso.
Quando tento dizer que ganhei um cachorrinho.
A senhora acha que eu sou um tolinho.
E nunca mais devolveu meu carrinho.
Nunca recebo um carinho.
Me acham um mimado. Mas brincar não sou autorizado
Vivo aterrorizado. Por não ter o alfabeto decorado
Meu jeans já esta até desbotado. De viver sentado
No livro enfurnado. Tentar me manter informado
Para que meus pais me vejam formado
Mas qual o modelo de adulto que eu tenho?
Sempre medindo meu desempenho!
Não percebem que me empenho?
Olha que bonito meu desenho!
Mas a raiz quadrada de 9 é 3. A formula de Báskara parece javanês
A senhora acha que eu falo maluques,
e todo mundo acha que eu sou burguês.
Vivo numa quitinete com acesso a internet, 5+2=7.
Minha orelha não precisa de cotonet.
Para ouvir sua lamúria por viver na penúria
Quando o aluno novo encara
De cara vê a cara do cara
Não lê, nem estuda... ó o cara!
Mas sabe a raiz de 36 de cara
A professora nem olha na cara
A professora minha cara
Diz que o santo é só mascara
Não sei se a senhora percebeu
Não sobrou ninguém
Só aquele que já aprendeu
Para o indisciplinado nem um vintém.
REFERÊNCIAS
AQUINO, J. G. Indisciplina. São Paulo: Moderna, 2003.
ARAÚJO, U.F. Moralidade e Indisciplina. In: AQUINO, J. G. (Org.). Indisciplina na escola. 13. ed. São Paulo: Summus, 1996. p. 103 - 115.
ESTRELA, M. T. Relação pedagógica disciplina e indisciplina na aula. 2. ed. Porto: Porto, 1994.
GROSS, I. Discurso pedagógico sobre indisciplina escolar. 2009. 112 f. Dissertação (Mestrado em Educação) Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2009.
POSTMAN, N. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999
RIBOULET, L. Disciplina preventiva. 3. ed. São Paulo: F.T.D., 1963.
TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
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