sexta-feira, 18 de junho de 2010

DISCURSO SOBRE INDISCIPLINA ESCOLAR

DISCURSO SOBRE INDISCIPLINA ESCOLAR

Este artigo apresenta uma investigação referente ao discurso pedagógico sobre indisciplina escolar. O trabalho de campo envolveu entrevistas não-estruturadas, aplicadas a um grupo de vinte e quatro professoras de 5ª série. O método para analisar as entrevistas foi baseado em uma abordagem qualitativa fundamentada em Laurence Bardin. Foram identificadas cinco categorias de análise de conteúdo, que representam a indisciplina escolar como: resistência imatura, desqualificação do trabalho docente, infantilidade social, reflexo de convivência com informação sem função, e reflexo de uma família desestruturada. Identificamos que o modo de lidar com esta situação não vem da formação acadêmica e sim de supostos valores familiares.
Palavras-chave: Educação, Indisciplina, Análise de Conteúdo.




Introdução
O presente artigo apresenta cinco categorias de indisciplina escolar, identificadas em entrevistas com professoras de quinta série de uma instituição pública e outra privada da cidade de Curitiba. Do total de vinte e uma professoras, foram selecionadas quatro , de acordo com a amostragem intencional por caso extremo ou desviante conforme definido por Patton (1990, p. 169, 170). O método de pesquisa é baseado em Bardin (2008) na forma de análise semântica. O documento – entrevistas com os professores de quinta série das escolas pública e particular da cidade de Curitiba - reflete algumas idéias principais, imperceptíveis mediante uma leitura horizontal do documento, mas que podem começar a ser observadas a partir de uma leitura flutuante.
Apesar da diversidade que as entrevistas apresentam, podem-se identificar certas similaridades em seu conteúdo. A elaboração dos índices seguiu a forma de que cada assunto deve ser abordado em cada uma das quatro entrevistas. Depois de seguidas leituras, foi possível identificar e agrupar certos índices, que irão apontar as categorias de análise do discurso pedagógico sobre indisciplina escolar.
Nosso entendimento do que é discurso, está baseado em Cambridge Advanced Learners Dictionary (2008, p. 283), baseado no A Modern Dictionary of Sociology (THEODORSON, 1979, p. 449) segundo essas fontes, discurso pode ser entendido como:

A partilha de símbolos de comunicação e concepções da realidade que são peculiares a um grupo ou sociedade. Palavras, frases e idéias têm significado especial dentro de um grupo que faça interação mais eficaz e dar aos membros um sentimento de identidade e pertença. Estranhos ou novos membros devem aprender a língua e os pressupostos da cultura ou subcultura antes que eles possam compreender as sutilezas da comunicação ou sinta-se seguro com os membros.

Desse modo, o discurso sobre indisciplina escolar circularia no grupo de professores através do significado, e da idéia, que se tem dela (explicitados ou não). Assim, o professor só poderia possuir, e cooptar, por “um” discurso de maneira progressiva e em contato direto com seu grupo.
Assim, a intersecção entre o método de pesquisa e o discurso sobre indisciplina escolar explicitaria o conteúdo encoberto daquilo que os professores chamam de indisciplina escolar.
Entrevistas
A professora A considera indisciplina como uma forma de “resistência a mim”, “um bloqueio” na interação professor-aluno. A professora B entende a indisciplina como “bagunça”, aquilo que “atrapalha a aula”, “conversas incessantes” e “resistência a educação”. A professora J compreende a indisciplina como uma “incomodação”. A professora K considera a indisciplina como “euforia” ou “extravasamento”, uma “perda de controle” da parte dos alunos. Feita a análise semântica desses conteúdos, pode-se elaborar a categoria, “resistência imatura”, presente no discurso das professoras sobre indisciplina escolar.
A professora A também considera a indisciplina como uma forma de “impedimento do trabalho docente”, “infantil”, eles (os alunos) “não estão trabalhando”. Para a professora B, a indisciplina é como se “eu não tivesse ali”. A professora J traz a indisciplina como aquilo que “foge a hora da atividade estipulada” e “atrapalha” na obtenção do objetivo. A professora K entende a indisciplina como “desobediência” a ela. Na análise semântica desses conteúdos, no discurso das professoras a indisciplina escolar seria uma “desqualificação do trabalho docente”.
A professora A também afirma que os alunos apresentam “desculpas tolas” para sua indisciplina. A professora B considera a indisciplina como “falta de vergonha” do aluno; a mesma professora afirma que “e recreio é recreação... recreação é parar de fazer... brincar, se divertir, recrear, eles não podem correr no pátio, brincar...”. A professora J considera a indisciplina como algo “não pertinente” a aula. Para a professora K a indisciplina é uma forma de os alunos explicitarem que “não gostam” dela, e que os alunos são indisciplinados por não preverem o “futuro” (na forma das avaliações bimestrais e carreira profissional). Na análise semântica desses conteúdos, pode-se elaborar a categoria, “infantilidade social”, presente no discurso das professoras sobre indisciplina escolar.
A professora A entende a indisciplina como uma expressão de que o aluno tem ”maior conhecimento da sociedade lá fora”, também como reflexo de “mudanças sociais rápidas” de “mais informações” e de “maior conhecimento de seus direitos”. A professora B considera a indisciplina como uma indisposição da parte dos alunos em “aprofundar conhecimento”. A professora J compreende a indisciplina como uma forma de dificuldade da parte dela em entender a “realidade” do aluno. A professora K, também considera a indisciplina como uma forma de “rebelião contra a ordem social”, e uma “diversidade social não reconhecida pela escola”. Na análise semântica desses conteúdos, pode-se identificar a categoria que caracteriza a indisciplina escolar como sendo “reflexo de convivência com informação sem função” que está presente no discurso das professoras sobre indisciplina escolar.
A professora A também considera a indisciplina como um reflexo da ”falta de respeito com os pais”. A professora B se refere a indisciplina com o seguinte ditado, “o fruto não cai longe do pé”, sendo um efeito da “falta de surra”. A professora J também considera a indisciplina na esteira do ”pai na prisão”, “pai e mãe não valem muito”, e que deveria “haver cursos para ser pais” e “caso você tivesse filho sem curso... multa... cadeia”. A professora K também compreende a indisciplina como reflexo de “pais condescendentes”. Na análise semântica desses conteúdos apresenta a categoria, “reflexo de uma família desestruturada”, presente no discurso das professoras sobre indisciplina escolar.
Percebemos que as categorias resultam da classificação analógica e progressiva dos elementos obtidos nas entrevistas após estabelecermos os índices e a codificação das entrevistas. As categorias produzidas durante o processo de análise de conteúdo se inter-relacionam ao longo do documento. A categoria “reflexo de uma família desestruturada” está interligada a “infantilidade social” e ao “reflexo de convivência com informação sem função” que estão atreladas a “desqualificação do trabalho docente” e a “resistência imatura” do aluno indisciplinado.
Assim, mediante a aplicação do método da análise de conteúdo nas entrevistas com professoras de quinta série de escola pública e particular da cidade de Curitiba, produzimos cinco categorias que descrevem a indisciplina como: a) resistência imatura; b) desqualificação do trabalho docente; c) infantilidade social; d) reflexo de convivência com informação sem função; e) reflexo de uma família desestruturada.

Tratamento dos Dados, Inferência e Interpretação
A convivência maior com uma informação sem função presente no discurso das professoras entrevistadas refere-se a atitude do aluno na sua relação com o conhecimento, em função de sua exposição uma grande quantidade de informação sem função, se apresentando como indisciplina escolar. Televisão, revistas, mas principalmente a internet, trouxeram uma grande variabilidade de informação, que segundo as professoras, não apresentam uma profundidade, função e relação adequada a formação acadêmica do aluno, além de desviarem a atenção que o aluno deveria dar a escola. Nesta relação com o conhecimento, a quantidade e qualidade da informação desvia a atenção e o objetivo do aluno, que teoricamente, se reflete como predisposição para indisciplina.
As professoras também se referem as redes pessoais de comunicação (MSN e as mensagens via celular), e as comunidades virtuais (Orkut), como um foco de informação visando a vida pessoal da criança e de seus colegas, contudo sem conteúdo formativo, mesmo que internamente esses meios sejam recheados de conteúdos referentes a vida escolar. Tais meios de se obter informação não são utilizados pelos alunos com fins educacionais, e quando o são, funcionam como recurso de facilitar a tarefa de casa por meio do “CtrlC CtrlV, copia cola”. Assim, a informação que o aluno acessa não possuiria profundidade e função formativa segundo o discurso das professoras, o que estaria se refletindo na relação com o conhecimento escolar, na aprendizagem, na educação, nas relações de sala de aula, surgindo indisciplina.
Ao se referirem a função da informação, as professoras entrevistadas também remetem a idéia de que nos dias de hoje as crianças e alunos possuem mais direitos do que deveres, e resguardados por estes direitos podem incidir em indisciplina escolar com maior frequência e intensidade, pois a idéia corrente é de que eles simplesmente podem fazer. Diante disso, no discurso das professoras os alunos e crianças só deveriam ter acesso a seus direitos quando obedecerem a todos os seus deveres; os alunos só terão o direito de brincar após o dever de obedecer as regras impostas.
Porém, podemos inferir, a partir das afirmações das professoras, que essa grande quantidade de informação a qual o aluno tem acesso acaba por criar nele uma confiança exacerbada. No discurso das professoras, os alunos acreditariam possuir um conhecimento suficiente para tirar a nota necessária e passar de ano, e saberiam o que a professora pode ou não fazer em relação a suas atitudes em sala de aula, isso daria a eles um relaxamento da atitude de aluno que deveriam apresentar.
Essa nova natureza da relação com a informação e do valor simbólico do conhecimento, possui implicação direta no respeito ao adulto que a criança deve ter. Segundo Postman (2008, p, 104), “restam-nos, então, crianças que confiam, não na autoridade do adulto, mas em notícias vindas de parte nenhuma. Restam-nos crianças que recebem respostas a perguntas que nunca fizeram”. Ainda segundo aquele autor, “a informação se tornou incontrolável – pelo qual o lar e a escola perderam sua posição de comando como reguladores do desenvolvimento da criança” (2008, p. 104). Podemos considerar que esta categoria de indisciplina escolar identificada no discurso das professoras entrevistadas, teria certa parcela de origem em uma relação de indisposição da criança com saberes disciplinares descrito por Tardif (2002).
Assim, indisciplina escolar seria o efeito do desencontro do saber disciplinar do professor e a informação a qual o aluno deseja e tem acesso, não só em conteúdo, mas também em sua forma e relação. Podemos, então, afirmar que a indisciplina escolar, que no discurso das professoras entrevistadas possui estreita relação como um reflexo de convivência com informação sem função, ocorre no momento pedagógico, afastando o professor da “satisfação magistral” (MEIRIEU, 2002, p. 59) de saber o que é importante para o aluno.
A indisciplina escolar, concebida como reflexo de convivência com informação sem função, também acaba por confirmar a idéia de que o aluno tenta se afirmar como sujeito com certa parcela de razão (aqui entendida como algo derivado da posse de informação) o que não é reconhecido pelo professor, que não considera essa informação como sendo conhecimento escolar válido.
Meirieu (2002, p. 138) afirma existir certa contradição no discurso pedagógico entre a “educação como reconhecimento de um sujeito já existente e a educação como formação de um sujeito que só terá esse estatuto no final do processo educativo”. Essa contradição se relaciona principalmente a duas categorias encontradas no discurso das professoras entrevistadas, reflexo de convivência com informação sem função e resistência imatura.
Três exemplos dessa categoria são filmes da TV, histórias em quadrinhos e Orkut. Quando a professora se utilizada da figura ou do exemplo de um filme, quando se utiliza de uma HQ, ou deixa recados no Orkut de seu aluno, essa informação possui uma função clara e definida, com um objetivo pertinente a aula e a formação; porém o modo como o aluno utiliza desses mesmos meios, e se relaciona com esse conhecimento, torna-se fonte de uma convivência maior com uma informação sem função, que pode gerar uma indisposição na forma de indisciplina na escola.
Quanto a resistência imatura, esta também apresenta contradição no discurso pedagógico conforme aquele descrito por Meirieu (2002, p. 138), há um entendimento subjacente no discurso da professoras entrevistadas, de que a indisciplina escolar é algo intencional da parte do aluno, o que justifica grande parte das considerações delas, assim a resistência é intencional, mas realizada de maneira imatura. Contudo, as professoras entrevistadas não afirmam que os alunos disciplinados são mais maduros que os indisciplinados; os alunos disciplinados apresentam dificuldades que também são deles e não dos professores. Dessa maneira, o que ficou latente no discurso das professoras entrevistadas foi a imagem de que o que atrapalha a educação seria o fato de existirem alunos. Em outros termos, nesse ponto, podemos nos questionar se o desejável seriam alunos “maduros e educados”.
Por resistência imatura, entende-se que os alunos indisciplinados resistem de maneira inoportuna as professoras e a educação. O aluno maduro deveria entender a importância da escola, da sua formação, de respeitar a professora, e não brincar. Desta maneira, bagunça, euforia, perturbação da ordem, entre outros, seriam uma forma dos alunos resistirem a educação e as professoras. No discurso das professoras entrevistadas, a resistência imatura pode ser entendida como uma causa mais abrangente do que é indisciplina escolar.
Segundo as professoras entrevistadas, os alunos possuem capacidade cognitiva para entender suas solicitações disciplinares. Contudo, suas atitudes indisciplinadas em sala de aula são tidas como imaturidade. Podemos inferir a partir das entrevistas, que, segundo as professoras, o aluno previamente deve saber, compreender e aceitar como deve se portar em sala de aula e perante a educação. Dessa maneira, tal resistência indicaria que a indisciplina escolar seria algo intencional da parte do aluno.
A resistência imatura também refletiria o não reconhecimento, por parte dos alunos, daquilo que podemos entender como uma “instigação disciplinar”, tal como, um olhar da professora, um “oooolhaaaa”, ou um simples “shisss”, que na idéia das professoras deveria servir de sinal para quem quer que seja parar de fazer o que quer que seja. Assim, quando o aluno não para ele estaria resistindo a professora e a educação.
Essa resistência imatura também se relaciona, de maneira clara, a outra categoria, a desqualificação do trabalho docente, pois as professoras entrevistadas apresentam, de maneira arraigada, a afirmação de que a docência é um trabalho. As professoras entrevistadas não se referem a sua atividade como educar, formar ou transmitir, consideram o magistério especificamente um trabalho. Assim, a indisciplina, como resistência imatura, em algumas ocasiões, seria indicação de que o aluno estaria desqualificando o trabalho docente. Vale ressaltar que a categoria desqualificação do trabalho docente foi a mais recorrente nas entrevistas. Ali encontramos afirmações categóricas de que os professores devem a todo custo trabalhar, mas a indisciplina escolar impediria que isso seja feito.
Assim, conversas paralelas, gritos, celular entre outros, impedem a realização do trabalho docente. Nas afirmações das professoras entrevistadas há uma forte crença de que a indisciplina seria tempo perdido de trabalho e de estudo. Aqui podemos nos questionar se quando os professores realizam seu trabalho, isso faz com que o aluno aprenda?! E, se não aprendeu, seria indisciplina?! Haveria assim uma resignificação daquilo que as conversas paralelas, e outras expressões de indisciplina, representam. Mas, caso a professora as perceba, são consideras uma desqualificação do trabalho docente, caso não as percebam enquadram-se em outra categoria.
A idéia de indisciplina como desqualificação do trabalho docente foi a categoria mais recorrente no discurso das professoras entrevistadas. Aqui, podemos nos perguntar se o que atrapalha as professoras na realização de seu trabalho seria o aluno do outro lado. Como afirmam as professoras entrevistadas, o trabalho do aluno é estudar, e o aluno indisciplinado é aquele que não trabalha, desqualificando o trabalho das professoras.
No discurso das professoras fica aparente o entendimento de que ser professor é um trabalho com requisitos claros a sua execução, exemplificados como recato no vestir (sem decote), chegar na hora, preparar a aula e não faltar, entre outros, mas não é dever do professor tolerar indisciplina escolar. Isto porque que o professor já é tido (e autointitulado) como capacitado a formar outros. Ele já foi “iluminado”, obtendo o direito de fazer o possível para alcançar o seu fim.
Assim, o professor, chancelado socialmente, possuiria o direito de afirmar que qualquer atividade não autorizada poderia ser entendida como indisciplina escolar. Quando o aluno não se emoldura no entendimento que o professor tem do que é ser aluno, que de acordo com as professoras também se configura como um sujeito que deve trabalhar (estudar), ele está desqualificando o trabalho docente.
Essa afirmação comprova a posição de Meirieu, quando escreve que nas duas últimas décadas “debruçar-se” (2002, p. 99) sobre a criança seria uma fraqueza imperdoável, uma negação e uma recusa a educação. Assim, qualquer instigação disciplinar é entendida como uma desnecessária intervenção, e qualquer coisa que não seja do dever de aluno seria uma desqualificação do trabalho docente.
Dessa maneira, a indisciplina não seria responsabilidade do professor ou do modo como exerce seu trabalho. Entretanto, o professor poderia certificar quem ou o que pode ser categorizado discursivamente como sendo indisciplina, qual sua causa. E isso leva a outra categoria identificada no discurso das professoras, indisciplina como reflexo de uma família desestruturada.
Essa categoria, presente no discurso das professoras entrevistadas, refere-se a imagem que elas possuem das famílias de seus alunos, contraposta a imagem de suas próprias famílias. Na imagem de família dessas professoras (focalizadas principalmente na figura materna) se destacaria uma disciplina que primaria pelos deveres anteriores aos direitos. A família que assim funciona, seria então, uma família minimamente “estruturada”. No entendimento das professoras entrevistadas, a família dos alunos indisciplinados se encontra “desestruturada” por não educar seus filhos a exercer deveres, tal como “obedecer” aos professores. Contudo, devido ao foco desta pesquisa, não podemos afirmar que esse seja o único motivo da “desestruturação” familiar, ou mesmo corroborar que a família se encontra “desestruturada”.
As professoras entrevistadas declararam que durante a sua formação não leram nada referente a indisciplina escolar ; e a origem de seus princípios referente a disciplina escolar estaria no modelo de como suas mães as educaram em casa. As mesmas professoras afirmam que os valores pessoais e sociais que receberam na infância, de suas mães e pais, seriam suas referências ao exigir disciplina. Assim, podemos inferir que as professoras identificam indisciplina escolar quando se veem diante de algo que fez parte da sua história de vida, que normalmente remete a infância.
As professoras entrevistadas sustentam que durante sua formação acadêmica a orientação recebida em relação a como lidar com a indisciplina escolar foi a de encaminhar o aluno a orientação pedagógica e não se preocupar com isso. Porém, a professora entrevistada que veio de outro estado (RJ) relata que, na intenção de minimizar a indisciplina escolar, recebeu a orientação de conhecer a realidade do aluno, que, por si só já diminuiria a incidência da indisciplina escolar.
Ressaltamos que, nos discursos das professoras, a maneira e a forma de disciplinar seus alunos possui origem em suas histórias de vida. Aquilo que era aceito e praticado por suas famílias seria aquilo que elas aceitam e praticam em sala de aula. Podemos inferir que para as professoras, suas famílias seguiriam um modelo estruturado, que também estaria presente na família dos alunos que são disciplinados. Assim, as famílias dos alunos indisciplinados seriam “desestruturadas” por não seguirem aquele modelo. Dessa forma, um efeito da estrutura da família estaria na transmissão as crianças de regras e valores pessoais, antes mesmo delas entrarem na escola.
Há uma tentativa clara de se identificar algo que justifique a indisciplina escolar, que, de acordo com as professoras entrevistadas, possui origem na família dos alunos indisciplinados, que são diferentes dos demais por não cumprirem determinada função familiar. Entendemos que essa posição das professoras é decorrente de suas próprias experiências profissionais, ao longo das quais, chamam os pais dos alunos indisciplinados, frequentemente, para “conversas ”. Talvez esse maior contato com pais de alunos indisciplinados contribua para a noção de indisciplina como reflexo de uma família desestruturada.
A categoria infantilidade social presente no discurso das professoras entrevistadas refere-se a interação dos alunos entre si e com a professora. Interessante notar que a interação entre os alunos não é observada somente em sala de aula, mas também na hora do intervalo das aulas e recreio, e mesmo nessa hora sua socialização é considerada infantil.
Segundo as professoras entrevistadas o problema não é brincar, é brincar de maneira errada; o problema não é falar, é falar continuamente, é gritar; o problema não é correr, é correr se acotovelando e no local errado; o problema não é questionar, é ser impertinente; assim, as professoras não identificam a indisciplina escolar no simples comportamento, mas no comportamento além dos limites e nas suas conseqüências.
Algo que está presente no discurso das professoras entrevistadas referente a infantilidade social é a relação que fazem entre a interação dos alunos e o ambiente escolar, pois os alunos não conseguiriam ou não saberiam conectar suas atitudes ao que o ambiente exige. Podemos afirmar, pelas entrevistas, que o aluno não saberia quando e em quais ambientes deve ocultar suas atitudes de criança.
Podemos considerar, a partir das afirmações das professoras, que a indisciplina escolar entendida enquanto infantilidade social esta intimamente relacionada a desqualificação do trabalho docente, pois a indisciplina “contagiaria” os colegas e geraria um “efeito cascata” cada vez mais difícil de disciplinar, desqualificando o trabalho docente. Esse grupo de indisciplinados transmitiria uma imagem infantil.
Assim, a indisciplina escolar entendida como infantilidade social pode ser notada tanto individualmente como em grupo. Aparentemente a idéia de infantilidade identificada nesta categoria não esta vinculada a uma relação entre idade física e cognitiva, estaria presente sim, a relação entre idade física, a idade pertinente a escolarização, e principalmente a expectativa esperada do comportamento do aluno.
Essas categorias identificadas, no discurso das professoras entrevistadas, interagem entre si, e uma não exclui a outra. Em outras palavras, indisciplina escolar pode ser concebida segundo, uma, duas, ou mais categorias do discurso das professoras.

Conclusão
Após as entrevistas e realizada a categorização, fica a nítida impressão de que aquilo que atrapalha os professores em realizar seu trabalho é a presença do aluno do outro lado da relação pedagógica. Aparentemente o professor espera um aluno ideal, que chega a escola já “educado”, propiciando a aquele, executar uma idéia que ele mesmo criou de um “jardim”, onde simplesmente se observa e se cuida do crescimento, onde não há “plantas daninhas”.
O discurso das professoras entrevistadas demonstra que elas não possuem nenhum embasamento teórico sobre o tema, o que não deve ser generalizado para a totalidade dos professores, o mais marcante é que aquilo que é pregado pela mídia, o que o professor viveu durante seu período de estudante,e principalmente transmitido pelas famílias é o que as professoras


REFERÊNCIAS

BARDIN, L. Análise de conteúdo. 5. ed. Lisboa: Edições 70, 2008.
MEIRIEU, P. A Pedagogia entre o dizer e o fazer. Porto Alegre: Artmed, 2002.
PATTON, M. Q., 1990, Qualitative Evaluation and Research Methods, Sage Publications, Inc. Newbury Park: London, 2nd ed.
POSTMAN, N. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 2008.
TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

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