Muito bem, hoje vou me aproveitar da linguagem de blog. Se agente perceber, a maioria dos blog’s falam em primeira pessoa e relata fatos da vida pessoal.
Vamos lá...
Hoje fui dar uma palestra sobre bully em um congresso. Resolvi iniciar a palestra com um relato pessoal.
Eu estava no primeiro ano do segundo grau técnico em informática em São Paulo. Eu tinha 15 ou 16 anos, e tinha uns 20 cm a menos que hoje em dia; mas o meu nariz já tinha o tamanho que ele tem hoje em dia; então proporcionalmente meu nariz era imenso... realmente grande devo admitir... os meus amigos me chamavam de narigão, ladrão de ar... essas coisas, mas eles eram meus amigos, eu os conhecia e tinha liberdade de brincar com eles também.
Porém, um dia, um garoto que não era meu amigo, quer dizer, eu o conhecia de vista nos falávamos nas raras vezes que fazíamos trabalhos juntos. Ele começou a me chamar de narigudo, ladrão de ar... as mesmas coisas que meus amigos chamavam, mas ele não era meu amigo, e aquilo foi me chateando... chateando... mas a educação religiosa ensina que se deve dar a outra face, então eu tentava relevar, tentava esquecer... eu falava que não gostava, pedia para ele parar, mas acho que ele percebia que aquilo me incomodava, que eu ficava irritado, e talvez por eu não ter um comportamento adequado de resposta não contava aos pais, aos professores, diretores... e quando estamos adolescentes queremos ser adultos o mais rápido possível e tentamos resolver os problemas sozinhos... depois de uns 4 ou 5 meses disso, teve um dia...
Naquela época os papeis de impressora eram os papeis contínuos, que vem com uns furinhos do lado para tirar, você tem que destacar uma folha da outra; enfim, o garoto usou umas três folhas para fazer uma caricatura minha; ele desenhou uma testa pequena, um nariz que percorria as três folhas e voltava para uma boca pequena, olhos pequenos, uma orelha que parecia o numero 3 desenhado. Ele entregou na minha carteira e saiu dando gargalhadas...
Aquilo me irritou de uma forma absurdamente profunda... o sangue ferveu, a cabeça tonteou, a visão pretejou, as mãos suavam, as pernas bambearam; eu me levantei... cuspi o chiclete que eu tava mascando no rosto do garoto, ele tentou levantar, eu dei uma pesada no peito dele e ele caiu na carteira com cara de assustado... e eu bati, bati, bati mais, bati muito nele.
Isso tudo aconteceu durante a aula, e o professor não percebeu, o garoto não deu queixa, não tive repreensão da parte do colégio nem dos pais do garoto.
Obviamente essa não foi a única vez que fui vitima de bully, na infância meu apelido era etíope (porque eu era muito magro) depois fui chamado de budum (eu tinha um cheiro esquisito no sovaco), a escola tinha ensinamento cristão, e as vezes ia um pastor dar umas palestras pra turma, na volta pra sala de aula os garotos brincavam de exorcismo comigo e me batiam pro espírito sair... eu podia ficar dando exemplos e exemplos, foram muitos...
Isso tudo teve repercussão na minha vida adulta. Fiquei inseguro, eu passei a acreditar que ou eu estava fedendo ou estava com mal hálito. Sempre achei meu nariz muito grande (acho que até hoje isso me incomoda), não conseguia falar com as pessoas porque achava que estava sempre errado, e quando eu pensava que estava tudo bem vinha o pensamento que eu estava com os dentes sujos; eu perdia oportunidades de trabalho, de estagio, me recusava a sair com os amigos porque me sentia deslocado, preferia ficar em casa lendo, vendo T.V. e principalmente me achando uma porcaria de ser humano.
Não posso afirmar que isso tudo foi por causa do bully sofrido na infância, mas por mais que eu tente, não consigo me lembrar de outras situações que diziam o quão errado eu era...
Enfim, eu comecei a fazer a palestra relatando isso tudo, e mexeu comigo, me perdi na apresentação, esqueci pontos importantes... espero que as pessoas tenham entendido, mas parece que não entenderam... fica aqui minhas desculpas. Se erve de consolo foi um ótimo dia para exorcizar meus pesadelos.
Até.
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