segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Porque vilões são doutores?

A produção cultural da indisciplina escolar, um início.

Alguns de vocês já devem ter notado que geralmente os vilões possuem uma inteligência superior. Deixando o mais claro possível: os vilões normalmente são doutores; alguns até ex-professores.

Vamos por partes; de onde vem esse “vilão” a qual me refiro? A idéia de vilão pode ter diversas abordagens, porém, aqui me refiro à vinculação daquilo que pode ser identificado como um “vilão+doutor” que é comumente chamado de “cientista maluco”; em outros termos, alguém com formação de nível superior (ou acima) que se comporta de maneira que busca o malefício de outros é chamado de “cientista maluco” (ou cientista louco). Normalmente o “cientista louco” busca a “dominação mundial”, dinheiro, ou a destruição de algo ou alguém.

Na idéia de “cientista maluco” existe uma separação que ocorre em torno de 1945. Antes de 45, os “cientistas loucos” se encontravam principalmente nas páginas dos livros, normalmente na pele de médicos, por exemplo: Dr. Frankenstein, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Dr. Moreau (da Ilha do Dr. Moreau), Dr. Griffin (de O Homem Invisível), Dr. Caligari (do filme de 1919 A cabine do Dr. Caligari), Dr. C. A. Rotwang (do filme de 1927 Metropolis), Dr. Fausto, entre inúmeros outros. Normalmente esses cientistas loucos desenvolviam algo que ia contra a “natureza humana” pondo em risco certos valores morais ou éticos importantes à época.

Após a Segunda Grande Guerra com a invenção da bomba atômica, e com a identificação das loucuras dos médicos nazistas, esses “cientistas malucos” ficaram mais reais, passou a haver a possibilidade de que ao menos um deles pudesse existir de verdade (ex. Dr. Menguele). Com o desenvolvimento do cinema, alguns vilões ganharam fama, como por exemplo: Dr. Julius No (do Satânico Dr. No, inimigo de James Bond), Dr. Eldon Tyrell (do filme Blade Runner), Dr. Durand Durand (do filme Barbarela), o próprio Dr. Frankenstein, Dr. Hannibal Lecter, Dr. Totenkopf (do filme Capitão Sky e o mundo do amanhã).

Nesse meio tempo os maiores divulgadores e “inventores” de cientistas malucos foram as Histórias em Quadrinhos (H.Q.), com um número quase inimaginável desses, por exemplo: Dr. Destino, Dr. Sinistro, Dr. Eduard Nigma, Lex Lutor, Dr. Silvana (inimigo do Capitão Marvel), Norman Osborn (Duende Verde inimigo do Homem Aranha), Dr. Curt Connors (o Lagarto inimigo do Homem Aranha), Otto Octavius (Dr. Octupus inimigo do Homem Aranha), Magneto, Hugo Strange, Dr. Jonathan Crane (Espantalho), Pamela Isley (Hera Venenosa), Victor Fries (Mr. Freeze), Kirk Langstrom, Caveira Vermelha, Dr. Mindbender (G.I. Joe), Dr. August Hopper; entre tantos e tantos outros...

É esse ponto que me interessa, por dois principais motivos, pelo público alvo e pela autoria. O principal público alvo das H.Q.s são (ou ao menos eram) as crianças que as lêem (ou liam) até em sala durante as aulas. Assim a imagem e principalmente a idéia de “cientista louco” atinge diretamente as crianças.

A imagem que atinge as crianças é mais ou menos essa, quem estuda muito tem chance de se tornar doutor, se, se deseja algo que não deve ou é contra a lei você pode vir a ser um vilão;
e se há o azar de se enlouquecer no meio do caminho, você pode vir a tornar-se um cientista louco! E você nem precisa enlouquecer, a simples soma de intenção desviada com inteligência superior é igual a cientista maluco.
Como assíduo leitor dessas histórias, devo afirmar que essa idéia nunca passou pela minha cabeça quando era criança. E a pergunta se torna a seguinte, isso foi intencional? (e uma pergunta para o futuro, isso ajudou na fetichisação da idéia de ser um vilão?)


São três as hipóteses vinculadas a uma resposta para a pergunta da intencionalidade de transmitir a idéia que vincula vilania a estudos.

Infelizmente não consigo lembrar onde eu li isso, portanto, se você achar essa afirmação em outro lugar, por favor, me avise para que eu possa dar o crédito à pessoa certa. A primeira hipótese esta ligada ao psiquiatra americano Fredric Wertham que publicou o livro “Seduction of the Innocent” de 1954 (um livro que tive o prazer de ler, bem peculiar devo dizer), nesse livro Wertham afirma que as H.Q.’s são as responsáveis pela delinquência juvenil (no Brasil, não houve uma tradução integral, algumas partes foram traduzidas em forma de artigos de jornal na mesma década). A hipótese é de que os autores de H.Q.’s “xateados” com tal psiquiatra personificaram os vilões como doutores que fazem o “mau”, uma espécie de vingança.

A segunda hipótese simplista posso dizer, é a de que os vilões precisam ser inteligentes para por em prática seus planos de dominação mundial. Os heróis precisam, basicamente, de força e amigos.

A outra hipótese (minha acredito, salvo aviso de leitores) considera que os autores das H.Q.’s, normalmente jovens que não concluíram o ensino superior (ainda bem!!! devo ressaltar), que possuem uma criatividade elevada, uma imaginação muito grande, devem ter sido alvo constantes de sanções disciplinares dos professores de sua época escolar. Assim os que lhe fizeram “mal” se transformam em vilões durante suas imaginações em sala de aula.

Essa última afirmação considera que os autores das H.Q.’s eram tidos como indisciplinados por seus professores justamente por não estarem “prestando atenção” na aula, no “mundo da lua”, o que pode ser confirmado pela história de desqualificação literária e artística das H.Q.’s pelos professores e sociedade (no Brasil H.Q.’s foram queimadas em praças públicas). Assim os alunos indisciplinados ou “artistas” não teriam um futuro promissor caso estivessem dedicados a essa “cultura popular” desviada.

Esse vínculo entre indisciplina escolar e cultura popular estaria, de maneira muito tênue ainda, demonstrando que a indisciplina escolar também teria uma parcela externa a escola, indisciplinados também seriam aqueles alunos que preferissem uma cultura popular em detrimento de uma cultura acadêmica.

Por favor, me contradigam!

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