
Aproveitando o feriado pela frente, eu começaria a construir uma postagem sobre indisciplina docente; porém uma notícia incrível me chamou a atenção. Incrível, pelo desdobramento midiático ocorrido, também pela presteza e disposição do ator envolvido; mas, incrível principalmente por algo que vem consumindo meus miolos ha muito tempo; o envolvimento da cultura infanto juvenil na formação de ações (individuais ou grupais) indisciplinadas; e obviamente na construção de novos modelos culturais discentes.
Em português a noticia saiu com o seguinte título: Johnny Depp faz visita-surpresa a escola vestido de pirata.
A notícia: LONDRES (Reuters Life!) - O astro de Hollywood surpreendeu uma escola de Londres ao aparecer a caráter, como pirata, depois de uma fã-mirim lhe ter escrito pedindo sua ajuda para um "motim", segundo relatos da mídia.
Beatrice Delap, de 9 anos, escreveu ao Capitão Jack Sparrow, o personagem de Depp nos filmes "Piratas do Caribe", pedindo a ajuda dele para promover um levante contra professores da Escola Primária Meridian, em Greenwich, sudeste de Londres.
“Somos um bando de jovens piratas em formação e estamos tendo dificuldade em promover um motim contra os professores. Adoraríamos se você pudesse vir nos ajudar",
O ator, que está em Londres rodando o quarto filme da série "Piratas do Caribe", foi à escola na quarta-feira, avisando o estabelecimento apenas dez minutos antes que estava a caminho. A escola rapidamente convocou uma assembléia geral, e Depp entrou no recinto, recebido com espanto pelos alunos, segundo a revista People.
Com a carta de Beatrice Delap em mãos, Depp a chamou para a frente do salão e a abraçou, mas jogou por terra a proposta de rebelião.
"Acho que é melhor não fazermos um motim hoje, porque há policiais ali fora me monitorando", teria dito Depp, que é pai de dois filhos
Você pode acessar a notícia em português em:
http://br.noticias.yahoo.com/s/reuters/101008/entretenimento/cultura_gente_johnny_depp_escola
Eu, sinceramente achei a história pouco crível e resolvi pesquisar um pouco mais; acabei achando, filmes no YouTube, e fotos do encontro do ator com a menina e também da carta. Nos vídeos, que por problemas de áudio fica difícil de entender, dá para pegar algumas coisas, o ator pergunta: você escova os dentes todos os dias?
(link: http://www.youtube.com/watch?v=tdiJG6WN49I)
No site da BBC (http://www.bbc.co.uk/newsbeat/11499794) eles apresentam outro pedaço dessa conversa: "He said he brought all these pirates will him so we could have a mutiny and take us to the staff room and eat nothing but candy and all our teeth would fall out."
Outro link que apresenta mais informações é: http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-1318516/Johnny-Depps-surprise-visit-London-primary-school-Captain-Jack-Sparrow.html
Você pode assistir uma entrevista com a garota em:
http://www.cbsnews.com/video/watch/?id=6938810n
Ok, se você foi atrás também deve ter achado a história incrível.
Porém vamos por partes.
Primeiro, a linguagem. É importante notar que a aluna em questão utiliza o termo “motim” contra os professores. Mesmo tendo pesquisado, não consegui encontrar o motivo do motim, e sinceramente ele, em si, não é importante, mas voltaremos a isso mais a diante.
Segundo, a busca da aluna. Mais importante que a linguagem, foi a busca que a aluna fez para resolver seu problema com os professores. Ela foi atrás do que queria, arriscou, chutou alto e conseguiu. O objetivo do aluno e do professor nos dia de hoje, me parece, é um se livrar do outro...
Terceiro, a mudança do objeto quando alcançado. Podemos notar ai uma intenção pré e uma recompensa pós. Veja, a aluna buscou ajuda de uma maneira pouco usual, não sei se indisciplinada, buscava um “motim” contra os professores. Quando o ator chegou a escola, o frenesi foi tanto que o “problema” foi deixado em segundo plano. A felicidade em conhecer seu herói foi maior que as reclamações. A mídia deu atenção ao ator (elogiando-o) e a aluna (também a elogiando); e isso fez a notícia. Deixou de ser a queixa da aluna contra os professores.
Quarto, que se origina da anterior; o diretor da escola quando entrevistado disse o seguinte; “Nós incentivamos nossos alunos a escreverem cartas a pessoas que blábláblá...”. Ok, eu mesmo já vi e participei dessa atividade onde o aluno escreve uma carta a alguém com algum objetivo. Mas, se o diretor soubesse da carta, soubesse do conteúdo, e se soubesse que seria respondida e receberia uma visita dessas; o que ele faria? Se você fosse o professor objeto de um motim, com essa repercussão, o que você teria feito? Não darei minha opinião.
Quinto, o herói envolvido. Se a aluna escrevesse ao Batman, ao Homem Aranha, ao Homem Gralha (herói de Curitiba), nenhum deles responderia, nenhum deles existe. E a pergunta fica a mesma quando perguntamos o ”Capitão Jack Sparrow” existe? Se a aluna escrevesse a Rainha, ao Primeiro Ministro, a Obama, ao Dalai Lama (todos esses são reais e existem) o que eles responderiam? Eles sequer responderiam?
Imaginemos: “Querida e estimada Vossa Alteza Real Rainha. Estou tendo problemas com meus professores. Estou pensando em fazer uma revolta. A Sra. poderia me ajudar?”, ou “Distinto Presidente Obama, assisti seus comícios onde o Sr. dizia: “Yes we can”, e lhe escrevo para dizer “sim, nós podemos” fazer uma revolta contra nossos professores. O Sr. poderia nos ajudar?” Sinceramente o que eles responderiam? Em três palavras? “Ele está certo”; em outras três, “obedeça a seu professor”. Talvez o Dalai Lama respondesse “não faça uma revolta, converse com seu professor”.
Sexto, o interesse cultural da aluna e seu vínculo com a escola e sua inserção na indisciplina escolar. Quais os “personagens” históricos, fictícios ou não que servem de heróis aos alunos, e qual sua influência no comportamento das crianças. E mais, qual o uso que a escola faz desses heróis?
Tomemos o exemplo do Capitão Jack Sparrow. Qual a impressão dos professores desse pirata, seus comportamentos, sua moral? Eles sabem de quem se trata? Os professores sabem qual a disciplina que os marujos estavam sujeitos nos meses no mar; e como transferi-la para a sala de aula?
O motivo do motim.
Por incrível que pareça a melhor resposta a todas essas perguntas veio de um ator que se interessa pelos alunos, pelas crianças, e que utiliza sua imagem para “educar”. “Você escova os dentes?” ele pergunta a aluna; até aos 80 anos de idade, cada vez que ela pensar em deixar de escovar os dentes...
O ator também não se interessa pelo motivo do motim, ele se interessa pela criança; e o que ele pode fazer por ela. O termo “motim” que é vinculado ao personagem substitui o termo desgosto pela professora
E ai aparece o motivo do motim. A insatisfação que a aluna sentia pela professora.
O que me faz pensar, se a aluna chegou a escrever para um personagem, um ator; qual a chance da professora não saber que seus alunos estavam insatisfeitos com ela, e o que ela fez?
Opção
a) Fez uma atividade chamada: escreva uma carta a alguém.
b) Como o Dalai Lama, conversou com eles.
c) Escreveu uma carta pedindo ajuda ao Capitão Jack Sparrow. (não isso foi a aluna que fez...)
d) Deu mais lição de casa.
e) Preparou uma prova mais difícil.
f) Não fez nada.
O que você faz?
Os professores têm interesse nisso?
A carta:
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